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A decisão de Cavaco (afastada a espuma das leituras mais simplistas)
era quase óbvia - por estratégia, por convicção ou por instinto.
Não lhe interessa nada que se olhe para Belém como um bastião dos
sectores mais conservadores da sociedade. E, na sua Casa Civil, além
da assessora para as Ciências da Vida, que tem essa fama, o
Presidente podia ouvir, para contrabalançar, os conselheiros para a
Saúde. Além disso, as opiniões que escuta não se restringem ao
círculo do Palácio Cor de Rosa. E, depois, talvez seja o político
que mais aprecia a decisão solitária.
Além de calar já uma polémica que decerto se iria instalar na
política portuguesa - como sucede com o aborto -, o Presidente sabe
que a procriação medicamente assistida (sobretudo, discutida pela
sigla PMA) é um tema obscuro para a opinião pública.
Ainda por cima, o governante que apostou na conclusão da
auto-estrada entre Lisboa e o Porto percebe bem o que está em causa
- e que não é apenas regular uma prática há muito instalada. Mais do
que a disputa entre retrógrados e radicais, a questiúncula entre
religião e ciência, há a dimensão de investigação e tecnologia,
indispensável para a nossa competitividade numa área de futuro como
a biotecnologia.
Por último, ao contrário de muitos observadores, um político como
Cavaco tem memória apurada. E sabe que Soares, nas presidências
abertas do primeiro mandato, até usava a expressão "fugir da
polémica [sobre a acção do Governo] como o Diabo da cruz". Só na
última, na Área Metropolitana de Lisboa (a que ficou na retina e na
recordação como síntese de todas), é que foi verdadeiramente
anticavaquista. Ora, depois de vetar a Lei da Paridade, era
importante que Cavaco desse conteúdo à sua promessa de "cooperação
estratégica" com a maioria governamental.
Enumerando estas razões (e também o facto de não ter consultado o
Tribunal Constitucional), percebia-se que o PR quase podia
parafrasear Humberto Delgado ao anunciar a posição sobre a lei:
"Obviamente, promulgo-a!" |