PS, PCP e BE recomendam que Gama rejeite petição sobre procriação assistida

 

PS, PCP e Bloco de Esquerda (BE) aprovaram hoje um relatório do deputado socialista Vitalino Canas recomendando ao presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, que rejeite a petição sobre Procriação Medicamente Assistida (PMA).

 

 

 

A petição deu entrada no Parlamento na manhã de 25 de Maio, dia para que estava marcada a votação final global da lei sobre PMA, aprovada com os votos favoráveis do PS, PCP, BE e "Os Verdes" e com a oposição do CDS-PP e da maioria dos deputados do PSD.

Antes de decidir se admitia ou não a petição, que propõe um referendo sobre PMA, Jaime Gama pediu um parecer à Comissão de Saúde, que manifestou dúvidas de ordem jurídica sobre a matéria, o que motivou um segundo pedido de parecer, à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.

"O presidente da Assembleia da República não pode admitir esta iniciativa, por já não estar em curso o processo legislativo dentro da Assembleia da República que é referência desta iniciativa popular", declarou hoje na Comissão de Assuntos Constitucionais o deputado encarregue de elaborar o parecer, Vitalino Canas.

Vitalino Canas recordou o artigo 4º da Lei do Referendo, segundo o qual "as questões suscitadas por convenções internacionais ou por actos legislativos em processo de apreciação, mas ainda não definitivamente aprovados, podem constituir objecto de referendo".

O PSD, pelo deputado Montalvão Machado, reagiu prontamente às conclusões do relatório, acusando o PS de ter apressado propositadamente a votação final global da lei sobre PMA e de, depois, ter retardado propositadamente a admissão da petição.

"Cheira-me a tramóia política. Se o termo for muito forte, eu mantenho: Isto é uma tramóia política. O PS dá provas de uma grande insensibilidade democrática, de incumprimento da lei de falta de decência política" e de "atropelo à democracia", acusou.

O social-democrata e o deputado do CDS-PP Pedro Mota Soares acentuaram que a petição foi entregue no Parlamento "antes da votação, com 80 mil assinaturas" e defenderam que a aprovação definitiva, da qual depende a admissibilidade das propostas de referendo, "só acontece com a promulgação pelo Presidente da República".

"A iniciativa está cá, ainda nem sequer saiu do Parlamento", exclamou Montalvão Machado.

Os dois partidos citaram o constitucionalista Jorge Miranda para o efeito e acusaram a maioria socialista de querer "calar quem quer falar" através "da secretaria" e o CDS-PP prometeu recorrer para o plenário "se o presidente da Assembleia da República decidir não admitir a petição", seguindo a recomendação hoje aprovada.

Ao lado do PS estiveram o deputado do PCP António Filipe, que disse desconhecer "outra votação" a seguir à votação final global e considerou "inequívoco" que a lei da PME é "um acto já aprovado, que não pode ser objecto de referendo", e a deputada do BE Ana Drago, que estranhou "o súbito fervor participativo do PSD e do CDS-PP".

"Fazer a acusação de que o processo legislativo foi rápido para que a petição não fosse discutida é gozar connosco. A lei foi aprovada na generalidade em meados de Novembro e esteve em discussão na especialidade até Maio", contestou Ana Drago, alegando que "até os peticionários foram ouvidos, todas as entidades que quiseram expor os seus pontos de vista foram ouvidas" nesse processo.

"Existem regras para a admissão de uma petição, que não foram cumpridas. E a apresentação da petição no exacto dia da votação final global da lei é brincar a qualquer coisa, não é um processo político sério. As regras definidas na lei não são meros formalismos", acrescentou.

O deputado do PSD Paulo Rangel discordou do seu partido quanto ao conceito de aprovação definitiva, concordando com PS, PCP e BE que esta acontece com a votação final global, mas defendeu que a petição deve ser aceite porque foi entregue a Jaime Gama antes da votação final global da lei da PMA.

Pelo PS, Ricardo Rodrigues contrapôs que, juridicamente, há uma distinção entre a entrega das petições e a sua admissão e que é esta última que deve ser considerada e o presidente da comissão, Osvaldo Castro, frisou que "é o presidente da Assembleia da República quem vai decidir se admite ou não a petição".

A lei que regula as técnicas de PMA acaba com um vazio legal de mais de 20 anos e destina-se a casais de sexo diferente, maiores de 18 anos, contemplando técnicas como a doação de espermatozóides, ovócitos e embriões de dadores anónimos.

De acordo com o documento, estas técnicas destinam-se a "pessoas casadas que não se encontrem separadas judicialmente de pessoas e bens ou separadas de facto, ou as que sendo de sexo diferente, vivam em condições análogas às dos cônjuges, há pelo menos dois anos".

De fora da lei ficam as pessoas sós, o que motivou protestos do PCP e do BE.

A lei proíbe a clonagem reprodutiva e o acesso a estas técnicas para melhorar características não médicas do nascituro, como a escolha do sexo, e proíbe a maternidade de substituição e a criação de embriões "com o objectivo deliberado da sua utilização na investigação científica".

Contudo, define como "lícita" a "investigação científica em embriões com o objectivo de prevenção, diagnóstico ou terapia em embriões, de aperfeiçoamento das técnicas de PMA".

Agência LUSA
 

www.rtp.pt  2006-06-21