Louise Brown, o Primeiro Bebé-proveta Faz Hoje 25 Anos

 
Por POR ANA MACHADO
Sexta-feira, 25 de Julho de 2003

O dia 25 de Julho de 1978 foi um sábado muito especial para o casal Leslie e John Brown, de Bristol, no Norte de Inglaterra. Mas também foi um sábado especial para muitos casais em todo o mundo, que estavam, até aí, impossibilitados de ter filhos naturalmente. Leslie preparava-se para ser a mãe do primeiro bebé-proveta de sempre, uma menina, chamada Louise Brown. Hoje, no dia dos seus 25 anos, a ciência continua a agradecer a Robert Edwards e Patrick Steptoe por um dia terem decidido investir anos de vida a conseguir recriar o milagre da vida num tubo de ensaio.

As primeiras experiências com maturação de ovócitos de mamíferos, nomeadamente ratinhos e coelhos, em tubos de ensaio tinham sido iniciadas ainda durante a década de 30. Mas muito tempo passou até que os resultados começassem a ser verdadeiramente aliciantes. Foi com o trabalho desenvolvido por Robert Edwards, na Universidade de Edimburgo, Escócia.

Mas farto de fazer experiências com células sexuais de animais, nos últimos anos da década de 50, Edwards decidiu que ia dar um passo em frente: "O que é que eu podia fazer pelos pacientes? Provavelmente nada, a não ser a partir da altura em que conseguisse fertilizar os ovócitos humanos 'in vitro'", conta o pioneiro num artigo que escreveu este ano, na revista "Nature Medicine", para comemorar a efeméride dos 25 anos do bebé-proveta.

"Comecei a fazer estudos com tecido ovárico humano recolhido em cirurgias. Mas tinha de conseguir fertilizar os ovócitos no laboratório", conta Edwards. As primeiras experiências de Pincus e Saunders, com coelhos, tinham mostrado que bastavam 12 horas para o amadurecimento e fertilização dos ovócitos no tubo de ensaio. Ter acreditado que esses resultados poderiam aplicar-se a células humanas custou-lhe vários desgostos. Até que chegou o dia: "Decidi então esperar 25 horas por três ovócitos que me restavam. De repente, foi a alegria. Agora havia esperança para a fertilização 'in vitro'".

Ainda havia que contornar o problema de como chegar, da melhor maneira, aos óvulos de uma paciente: "Tive de procurar um colega que conseguisse chegar ao ovário de uma forma pouco invasiva. Em 1968, telefonei a Patrick Steptoe para saber como estava a correr o seu trabalho com a laparoscopia." Steptoe tinha desenvolvido uma técnica de cirurgia minimamente invasiva para recolher os ovócitos. Foi assim que se juntou a equipa que faria nascer, dez anos de trabalho depois, o primeiro bebé-proveta do mundo, a famosa Louise Brown.

É claro que toda a vida de Louise Brown foi seguida de perto. Todos queriam saber quem era o primeiro bebé-proveta do mundo. Em conferências internacionais, em entrevistas, em reportagens, a bebé loura gordinha e extrovertida transformou-se numa criança activa, depois numa adolescente típica, que trabalhou no "Burger King" de Bristol e que, aos 18 anos, conseguiu realizar um sonho: trabalhar com crianças. Tornou-se então assistente de um infantário, em Bristol, onde ainda hoje trabalha.

Leslie Brown diz que só contou à filha que era ela o primeiro bebé-proveta do mundo aos quatro anos. Mas ela não entendeu nada do que lhe estavam a falar. Aos dez anos percebeu, de facto, o que a tinha feito nascer. O mesmo se passou com Alastair MacDonald, o segundo bebé a nascer através de fertilização médica assistida. Tinha dez anos quando ouviu a notícia da morte do tio Steptoe, Patrick Steptoe. A televisão contava como ele tinha feito nascer a sua amiga Louise Brown. Ficou então tudo claro para Alastair sobre o tio Steptoe, sobre Louise e o facto de os pais terem sempre dito que ele era um bebé especial.

Natalie Brown, irmã de Louise, hoje com 21 anos, é também um bebé especial, concebido por fertilização "in vitro". E o mundo está cheio de centenas de milhares de bebés especiais, que, desde 1978, nasceram em todo o mundo por meio da técnica de fertilização "in vitro" desenvolvida por Edwards e Steptoe.

Questionada aos 17 anos, numa conferência de imprensa em que o PÚBLICO participou, Louise, uma adolescente como qualquer outra, disse que do seu futuro só sabia de uma coisa: "Quero trabalhar com crianças." Em relação ao que pensava sobre bebés-proveta, confessou: "Não, não me tenho interessado muito por essas técnicas de fertilização."

Primeiro Bebé em Portugal Nasceu em 1986
Por ANA MACHADO
Sexta-feira, 25 de Julho de 2003

A 1 de Março de 1986 o semanário "Expresso" trazia, no caderno principal e nas páginas dedicadas à actualidade nacional, um artigo de meia página sobre o nascimento do primeiro bebé-proveta português - Carlos Miguel Celeiro. O bebé nascera bem, com 3.300 quilos e 50 centímetros, de cesariana, a 25 de Fevereiro. O feito da equipa foi do médico António Pereira Coelho, da Unidade de Fertilização "In Vitro" do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e do laboratório de biologia molecular do Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, onde foi feita a parte laboratorial. A revista d'"O Jornal" chamava-lhe "Um milagre com paredes de vidro", aludindo à criação de bebés em tubos de ensaio.

Mas o título da notícia do "Expresso" não era o milagre em si, mas as "paredes de vidro", atacando as questões éticas: "Bebé-proveta faz nascer medicina-espectáculo em Portugal". Esgotada a notícia desde o início da semana, o "Expresso" lançava o tom de crítica sobre o tratamento deste acontecimento, que toda a semana tinha feito as primeiras páginas dos jornais. Acrescentava que a medicina-espectáculo não deixava de suscitar dúvidas, já para não falar nos problemas éticos do procedimento e outros problemas, como o das gravidezes múltiplas que poderia provocar e o das mães de aluguer.

O facto é que a notícia tinha tido o grande acontecimento daquela semana. A 26 de Fevereiro, o dia acordava com o bebé Carlos Miguel em todas as primeiras páginas dos jornais. Do "Diário de Notícias" ao "Diário de Lisboa" e ao então vespertino "A Capital". O "Diário Popular" chamava-lhe "o bebé de oiro". Numa reportagem de oito páginas, assinada por três fotojornalistas e seis jornalistas, entre os quais Ferreira Fernandes e Baptista-Bastos, aquele matutino dava todos os pormenores da chegada a Portugal do admirável mundo novo, como descreviam o acontecimento.

Numa ilustração, o "Diário Popular" descrevia ainda "as mil e uma maneiras de fazer bebés", desde a fertilização "in vitro" (FIV) ate às mães de aluguer, passando até pelo adultério, como uma das maneiras de vencer a infertilidade.

Falaram com a avó Gertrudes, com a melhor amiga da mãe, Maria de Lurdes, e descreviam como o pai, Carlos Manuel Valente Celeiro, de 30 anos, cortador, e a mãe Alda Maria, de 28 anos, doméstica, voltariam dentro de poucos dias a casa, no bairro da Musgueira Sul, em Lisboa, com um milagre nos braços. Tinham esperado dez anos por ele. O tratamento, que custou cem mil escudos, tinha sido todo pago pelo Estado.

Já tinham nascido no mundo 220 bebés-proveta, desde o nascimento de Louise Brown, em 1978. Mas Carlos Miguel era o primeiro bebé-proveta português, o que fazia de Pereira Coelho o "Doutor-Proveta", e que lhe dava direito a fotografia com a família, de página inteira, na revista d'"O Jornal". Ninguém tinha coragem de negar a emoção deste passo para a ciência portuguesa.

Quatro dias antes de Carlos Miguel ter nascido, o padre jesuíta Luís Archer - o introdutor da genética em Portugal e que era professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e investigador do laboratório de genética molecular do Instituto Gulbenkian de Ciência - falava de bebés-proveta, num artigo de opinião n'"O Jornal": "A FIV, praticada dentro do casal sem destruição de embriões excedentários, parece poder incluir-se na comunhão interpessoal em liberdade e amor. Nesse caso, a tecnologia é um prolongamento da vida sexual do casal. E haverá nova razão para louvar a Deus que criou a inteligência do homem, e que, através da ciência, o fez participante da sua acção criadora." O milagre vencia as paredes de vidro?

"Foi Impressionante o Que Se Aprendeu Nestes Anos"
Por ANA MACHADO
Sexta-feira, 25 de Julho de 2003

Ao olhar para trás, para os últimos 25 anos, Alberto Barros e Pedro Sá e Melo não têm dúvida de que, só graças ao feito de Robert Edwards e Patrick Steptoe, em 1978, foi possível o longo caminho da reprodução medicamente assistida. Devido a eles, hoje milhares de casais vivem a felicidade de ter um filho. Mas os especialistas acusam o Estado português de, ainda hoje, não encarar a infertilidade como uma doença que incapacita, deprime e diminui os casais.

Alberto Barros, director do serviço de genética da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, e Pedro Sá e Melo, ex-director do serviço de ginecologia da Maternidade Alfredo da Costa, ambos especialistas em reprodução medicamente assistida, já perderam a conta de quantos bebés fizeram nascer com estas técnicas. Mais de dois mil talvez, arrisca Alberto Barros. Mas cada caso é um caso, acrescenta Sá e Melo. Os dois são consensuais sobre a importância do nascimento de Louise Brown. "Foi maravilhoso conseguir num tubo de ensaio o que acontece no organismo da mulher", comenta Alberto Barros. "Foi impressionante o que se aprendeu nestes anos", sublinha, por sua vez Sá e Melo.

Os dois especialistas lembram que, conceitos que hoje discutimos como banais - como a investigação das células estaminais embrionárias, por exemplo -, nunca tinham sido possíveis sem o feito de Edwards e Steptoe: "A utilização de células estaminais embrionárias só foi possível com o passo que eles deram em laboratório", lembra Sá e Melo. Já para não falar do que significa ter vencido o problema da infertilidade feminina com a fertilização "in vitro" e, mais tarde, em 1992, da infertilidade masculina com a micro-injecção intracitoplasmática: "Deram-se grandes passos no sentido de combater a infertilidade do casal", conclui Alberto Barros, que conseguiu obter a primeira gravidez do mundo de um pai com espermatozóides totalmente imóveis, em 1997.

Agora, a medicina é também mais segura para a saúde dos bebés concebidos por estas técnicas: "Em relação à fertilização 'in vitro', é hoje consensual dizer-se que há muita tranquilidade sobre a saúde destes bebés. Mas precisamos de números para sentir essa tranquilidade. A taxa de malformações congénitas não é superior à população em geral. Sobre a micro-injecção não há também aumento da taxa destas malformações."

Para ambos os especialistas, as expectativas sobre o futuro da reprodução medicamente assistida são enormes: "Queremos aumentar a taxa de sucesso e diminuir a taxa de gemelaridade", diz Alberto Barros. Também temos expectativas no âmbito do diagnóstico pré-implantação, para aumentar a segurança da gravidez e diminuir a incidência de problemas genéticos. Isto, claro, se o legislador nos deixar", acrescenta.

Pedro Sá e Melo também tem expectativas noutro sentido: "O futuro pode trazer-nos o domínio perfeito da técnica de congelação de óvulos, o que hoje só ainda conseguem três ou quatro centros mundiais em todo o mundo. As mulheres adiam cada vez para mais tarde a concepção, com todos os riscos que isso implica para uma concepção saudável. Seria óptimo que pudessem congelar os seus óvulos ainda jovens.". E acrescenta: "As expectativas que se abrem são perfeitamente deslumbrantes."

As Técnicas de Reprodução Medicamente Assistida
Por ANA MACHADO
Sexta-feira, 25 de Julho de 2003

Inseminação artificial

Esta técnica é usada quando não há problemas quer com a mobilidade dos espermatozóides, quer com a produção de óvulos. Mas, por alguma razão, como problemas no muco vaginal, a mobilidade dos espermatozóides, na busca do ovócito para fertilizar, é diminuída. Neste caso, a introdução dos espermatozóides é feita medicamente, através de uma sonda muito fina.

Fertilização "in vitro"

Apesar de experiências, desde a década de 30, terem contribuído para tornar possível a fertilização "in vitro", foi o trabalho de Edwards e Steptoe, durante os anos 70, que levou à sua concretização. Trata-se de recolher ovócitos e espermatozóides, para os juntar num prato de laboratório e fazer com que a fertilização ocorra externamente ao corpo da mulher.

Fertilização "in vitro" com micro-injecção intracitoplasmática

No caso de os espermatozóides não terem mobilidade - ou terem muito pouca ou, mesmo que a tenham, não consigam romper o óvulo, por razões desconhecidas, para dar lugar à fecundação -, pode-se inocular uma célula sexual masculina dentro do citoplasma de uma célula sexual feminina. Assim, induz-se, mais uma vez num prato de laboratório, a fertilização. Esta técnica, introduzida apenas desde 1992, pode ser conseguida de quatro maneiras possíveis:

1 - Apenas com espermátidos ou espermatídeos, como também se chamam, a fase antes de se tornar um espermatozóide

2 - Com espermatozóides recolhidos de sémen ejaculado

3 - Com espermatozóides obtidos por aspiração ou biópsia testicular, ou seja, directamente do testículo

4 - Por ejaculação com estímulo eléctrico, normalmente usada em casos de tetraplagia do pai, quando não se consegue a ejaculação de forma natural.