10-01-2006 12:55:00.  Fonte LUSA.    Notícia SIR-7631746
Temas:  saúde ciência portugal parlamento

Procriação Medicamente Assistida: Especialistas querem lei sem fundamentalismos

 

 

Lisboa, 10 Jan (Lusa) - Vinte anos após o nascimento em Portugal do primeiro bebé através de uma técnica de Procriação Medicamente Assistida (PMA), os especialistas nesta área reclamam uma legislação que balize os procedimentos sem lugar para fundamentalismos políticos ou religiosos.

Num debate sobre as implicações éticas, sociais e legais da PMA, que decorre hoje na Assembleia da República por iniciativa da Comissão de Saúde, foram várias as vozes que se ouviram sobre as diversas implicações destas técnicas que se praticam em Portugal desde 1986, sem qualquer regulamentação.

Na Assembleia da República encontram-se quatro projectos de lei (PS, PSD, PCP e BE), que deverão resultar numa legislação sobre a PMA, sete anos após uma iniciativa parlamentar ter sido vetada pelo Presidente da República, Jorge Sampaio.

O obstetra e membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), Miguel Oliveira da Silva, recordou precisamente a morosidade deste processo que, na sua opinião, tem sido excessivamente "politizado".

O médico lamentou ainda a "religiosidade" com que se têm revestido algumas opiniões, criticando a posição assumida pelo cardeal patriarca de Lisboa, durante a mensagem de Ano Novo, na qual D. José Policarpo se manifestou contra a investigação em embriões excedentários.

Na sua intervenção, D. José Policarpo considerou que a actual preparação da legislação que regule a PMA em Portugal é "um exemplo preocupante" e "nem todas as descobertas da ciência, aplicadas sem o rigor ético de defesa da dignidade da pessoa humana, são factores de paz".

O cardeal patriarca de Lisboa considerou que o processo técnico-científico devia evitar a existência de embriões excedentários (resultantes de tratamentos contra a infertilidade e que não foram implantados no útero).

Em nome da "dignidade do embrião humano", o cardial patriarca manifestou-se ainda contra "qualquer investigação, por mais promissora que seja".

Miguel Oliveira da Silva apelou aos deputados da Assembleia da República para que decidam "em liberdade e consciência e livres de pressões nem fundamentalismos religiosos travestidos de dados pseudo-científicos".

O especialista recordou que, em 1978, quando nasceu a primeira criança através de uma técnica de PMA - a inglesa Louise Brown - os cientistas autores da proeza depararam-se com enormes reticências, apesar de, hoje em dia, ninguém questionar a eficácia da Fertilização In Vitro (FIV).

Para o nascimento de Louise Brown, prosseguiu o médico, foram utilizados 101 embriões humanos. "Será que foram 101 assassinatos, 101 infanticídios ou 101 crimes?", questionou.

O médico reconheceu que, tal como há sete anos, quando a legislação aprovada no Parlamento foi vetada por Jorge Sampaio, subsistem dúvidas nesta área, acrescentadas por outras que entretanto surgiram.

Qual o número ideal de embriões a transferir para o útero ou o que determina uma taxa de sucesso dos tratamentos de infertilidade foram alguns dos exemplos apresentados por Miguel Oliveira da Silva de dúvidas que ainda existem.

O "pai" do primeiro bebé-proveta português, o ginecologista Pereira Coelho, recordou uma odisseia de 20 anos, desde que aplicou a FIV em Portugal com sucesso.

Na altura, "as incógnitas eram mais que muitas" e o clima de "dúvidas e incertezas" era uma realidade.

O especialista partilhou com a audiência uma constatação a que assistiu durante as duas décadas de prática na área da medicina da reprodução: "Os projectos parentais que, por utilizarem dadores, eram potencialmente atípicos, revelaram-se tão ou mais sólidos do que os processos intra-conjugais".

Pereira Coelho manifestou-se contra a união de homossexuais e gravidezes entre lésbicas ou em lésbicas que vivem isoladamente e lamentou os erros cometidos em nome das taxas de sucesso.

As elevadas gravidezes múltiplas, a prematuridade, as reduções embrionárias e os síndromes de hiper- estimulação ovárica são alguns dos erros que, para Pereira Coelho, foram cometidos em nome de elevadas taxas de sucesso destes tratamentos.

No debate participou ainda a cientista e oncologista Leonor Parreira, que relatou os principais avanços na investigação com células estaminais embrionárias, ressalvando que, no meio de tanto avanço, ninguém sabe para onde caminha o homem se parar por aqui ou se avançar em frente.

SMM.

Lusa/Fim

 

 

 

11-01-2006 16:19:00.  Fonte LUSA.    Notícia SIR-7635412
Temas:  ciência religião portugal

Procriação Assistida: Conferência Episcopal contra doação de esperma e óvulos

 

 

Lisboa, 11 Jan (Lusa) - O órgão de cúpula da Igreja Católica Portuguesa é contra o recurso a dadores de esperma e de óvulos, a maternidade de substituição e a existência de embriões excedentários no âmbito da Procriação Medicamente Assistida (PMA).

Esta posição foi manifestada terça-feira durante uma reunião do Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa, que decorreu em Fátima, no mesmo dia em que, em Lisboa, especialistas debateram as implicações éticas, sociais e legais da PMA.

O debate decorreu na Assembleia da República, onde deram entrada quatro projectos de lei (PS, PSD, PCP e BE) que visam regulamentar a PMA que é praticada em Portugal desde 1986.

A CEP, onde têm assento todos os bispos, reconhece "o anseio sério de muitos casais em solucionar o seu problema de infertilidade ou de esterilidade".

Apesar de acolher "a necessidade de uma lei que regule e estabeleça as fronteiras entre o cientificamente possível e o eticamente aceitável", a CEP considera que a Procriação Medicamente Assistida deve "atender ao direito da criança que irá nascer, como fim em si mesma e não resultado de um direito paterno ou materno sem limites".

A CEP considera que a futura lei não deve ultrapassar certos limites, devendo definir que as técnicas de PMA sejam "reservadas a casais heterosexuais, para assegurar o dever ético de oferecer ao novo ser um homem como pai e uma mulher como mãe".

A lei não deve, segundo a CEP, admitir "o recurso a gâmetas fora do casal em virtude da grave dissociação entre paternidade genética e social".

De acordo com a posição da Conferência Episcopal Portuguesa, a nova legislação não deve considerar "aceitável o recurso a mães portadoras porque atinge a interacção profunda entre a criança e a mãe e porque experiências noutros países têm gerado muitas situações intoleráveis de conflito entre os pais biológicos e a mãe portadora, com enorme prejuízo para a criança a gerar".

"Sendo o embrião uma vida humana dotada de dignidade, as técnicas usadas devem evitar a existência de embriões excedentários, mesmo destinados a uma segunda gravidez do casal", defende a CEP.

Por esta razão, a Conferência preconiza que, "de nenhum modo, estes embriões sejam utilizados para a investigação, enquanto vivos".

No debate que decorreu terça-feira na Assembleia da República, vários especialistas na área da medicina da reprodução reclamaram uma legislação que balize os procedimentos sem lugar para fundamentalismos políticos ou religiosos.

O obstetra e membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), Miguel Oliveira da Silva, lamentou a "religiosidade" com que se têm revestido algumas opiniões, criticando a posição assumida pelo cardeal patriarca de Lisboa, durante a mensagem de Ano Novo, na qual D. José Policarpo se manifestou contra a investigação em embriões excedentários.

Na sua intervenção, D. José Policarpo considerou que a actual preparação da legislação que regule a PMA em Portugal é "um exemplo preocupante" e "nem todas as descobertas da ciência, aplicadas sem o rigor ético de defesa da dignidade da pessoa humana, são factores de paz".

O cardeal patriarca de Lisboa considerou que o processo técnico-científico devia evitar a existência de embriões excedentários (resultantes de tratamentos contra a infertilidade e que não foram implantados no útero).

Em nome da "dignidade do embrião humano", o cardeal patriarca manifestou-se ainda contra "qualquer investigação, por mais promissora que seja".

Miguel Oliveira da Silva apelou aos deputados da Assembleia da República para que decidam "em liberdade e consciência e livres de pressões de fundamentalismos religiosos travestidos de dados pseudo-científicos".

SMM.

Lusa/Fim

 

Mariano Gago defende que PMA não deve ser só para casais heterossexuais

 

 

 

" Estou totalmente a favor de que qualquer mulher, qualquer que seja a sua situação, possa ter acesso à procriação medicamente assistida (PMA). " Com estas palavras, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior assume a sua discordância em relação ao projecto-lei do PS sobre PMA, que se estende também à possibilidade da maternidade de substituição Mariano Gago vê-a com reservas, o diploma admite-a.

Considerando que "a grande desigualdade social e económica que existe em Portugal" poderia fomentar a existência de situações conhecidas como " barrigas de aluguer", o ministro - que falava ontem no encerramento de um colóquio sobre as implicações éticas, sociais e legais da PMA organizado pela Comissão de Saúde do Parlamento -, afirmou-se também "totalmente em desacordo" com aquilo que denominou de "obsessão irracional em ver em qualquer aglomerado de células pluripotentes um ser humano". E exemplificou "Enquanto falo, estou a lançar no ar partículas de saliva que têm o meu DNA e que poderão, se não hoje decerto num futuro próximo, ser utilizadas para dar origem a outro ser humano. Mas nenhuma delas é, por amor de Deus, um ser humano."

À volta do embrião

Esta posição de Mariano Gago, que fez questão de a afirmar como "pessoal" , foi tornada pública no mesmo dia em que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) divulgou uma "nota sobre procriação medicamente assistida". Reconhecendo a legitimidade do recurso à técnica e a necessidade da regulação legal da sua prática (em curso no País há 20 anos), os bispos estabelecem os "limites que a futura lei não deveria ultrapassar". A PMA deve ser "reservada a casais heterossexuais", e, para evitar o que consideram "grave dissociação entre paternidade genética e social", sem admissão de reprodução heteróloga, (recurso a óvulos ou espermatozóides que não provenham do casal). Também a maternidade de substituição lhes surge como inaceitável.

Vendo o embrião como "vida humana dotada de dignidade", a CEP quer que se evite a existência de embriões excedentários, "mesmo destinados a uma segunda gravidez do casal", e que jamais se use um embrião "vivo" para investigação.

O excedente de embriões no processo de PMA e qual o destino que lhes deve ser dado foi um dos assuntos mais debatidos no colóquio, no qual não foram abordados os efeitos da técnica nas mulheres a ela submetidas. A possibilidade de investigação nos embriões excedentários é porém aceite pelos quatro projectos-lei aprovados (PS, PSD, PCP e BE), cuja discussão na especialidade deve iniciar-se em breve.