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Lisboa, 10 Jan
(Lusa) - Vinte anos após o nascimento em Portugal do
primeiro bebé através de uma técnica de Procriação Medicamente Assistida
(PMA), os especialistas nesta área reclamam uma legislação que balize os
procedimentos sem lugar para fundamentalismos políticos ou religiosos.
Num debate sobre as implicações
éticas, sociais e legais da PMA, que decorre hoje na Assembleia da República
por iniciativa da Comissão de Saúde, foram várias as vozes que se ouviram
sobre as diversas implicações destas técnicas que se praticam em Portugal
desde 1986, sem qualquer regulamentação.
Na Assembleia da República
encontram-se quatro projectos de lei (PS, PSD, PCP e BE), que deverão
resultar numa legislação sobre a PMA, sete anos após uma iniciativa
parlamentar ter sido vetada pelo Presidente da República, Jorge Sampaio.
O obstetra e membro do Conselho
Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), Miguel Oliveira da Silva,
recordou precisamente a morosidade deste processo
que, na sua opinião, tem sido excessivamente "politizado".
O médico lamentou ainda a
"religiosidade" com que se têm revestido algumas opiniões,
criticando a posição assumida pelo cardeal patriarca de
Lisboa, durante a mensagem de Ano Novo, na qual D. José Policarpo se
manifestou contra a investigação em embriões excedentários.
Na sua intervenção, D. José
Policarpo considerou que a actual preparação da legislação que regule a PMA
em Portugal é "um exemplo preocupante" e "nem todas as
descobertas da ciência, aplicadas sem o rigor ético de defesa da dignidade da
pessoa humana, são factores de paz".
O cardeal patriarca de
Lisboa considerou que o processo técnico-científico devia evitar a existência
de embriões excedentários (resultantes de tratamentos contra a infertilidade
e que não foram implantados no útero).
Em nome da "dignidade do
embrião humano", o cardial patriarca manifestou-se ainda contra
"qualquer investigação, por mais promissora que seja".
Miguel Oliveira da Silva apelou aos deputados da Assembleia da
República para que decidam "em liberdade e consciência e livres de
pressões nem fundamentalismos religiosos travestidos de dados
pseudo-científicos".
O especialista recordou que, em
1978, quando nasceu a primeira criança através de uma técnica de PMA - a inglesa Louise Brown - os cientistas autores da proeza depararam-se com
enormes reticências, apesar de, hoje em dia, ninguém questionar a eficácia da
Fertilização In Vitro
(FIV).
Para o nascimento de Louise Brown, prosseguiu o
médico, foram utilizados 101 embriões humanos. "Será que foram 101
assassinatos, 101 infanticídios ou 101 crimes?", questionou.
O médico reconheceu que, tal como
há sete anos, quando a legislação aprovada no Parlamento foi vetada por Jorge
Sampaio, subsistem dúvidas nesta área, acrescentadas por outras que
entretanto surgiram.
Qual o número ideal de embriões a
transferir para o útero ou o que determina uma taxa de sucesso dos
tratamentos de infertilidade foram alguns dos exemplos apresentados por Miguel Oliveira da Silva
de dúvidas que ainda existem.
O "pai" do primeiro bebé-proveta português, o ginecologista Pereira Coelho,
recordou uma odisseia de 20 anos, desde que aplicou a FIV em Portugal com
sucesso.
Na altura, "as incógnitas eram
mais que muitas" e o clima de "dúvidas e incertezas" era uma
realidade.
O especialista partilhou com a
audiência uma constatação a que assistiu durante as duas décadas de prática
na área da medicina da reprodução: "Os projectos parentais que, por
utilizarem dadores, eram potencialmente atípicos, revelaram-se tão ou mais
sólidos do que os processos intra-conjugais".
Pereira Coelho manifestou-se contra a união de homossexuais e gravidezes
entre lésbicas ou em lésbicas que vivem isoladamente e lamentou os erros
cometidos em nome das taxas de sucesso.
As elevadas gravidezes múltiplas, a
prematuridade, as reduções embrionárias e os síndromes de hiper- estimulação ovárica são
alguns dos erros que, para Pereira
Coelho, foram cometidos em nome de elevadas taxas de
sucesso destes tratamentos.
No debate participou ainda a
cientista e oncologista Leonor Parreira, que relatou os principais avanços na
investigação com células estaminais embrionárias, ressalvando que, no meio de
tanto avanço, ninguém sabe para onde caminha o homem se parar por aqui ou
se avançar em frente.
SMM.
Lusa/Fim
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