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Todos os anos há
vários casais portugueses que viajam para os Estados Unidos com o
propósito de recorrer a clínicas especializadas em "barrigas de
aluguer". Só para a clínica B Coming - Alternatives to Infertility,
na Califórnia, viajam cerca de dez por ano. Rosa
Balcazar, directora da clínica, explicou ao DN que "os portugueses, tal
como muitas pessoas de todo o mundo, vêm com uma grande ansiedade e um
grande desejo de concretizar o sonho de serem pais".
Um desejo que, no caso português, esbarra na Lei n.º32/2006, de 26 de
Julho, sobre a procriação medicamente assistida (PMA). A propósito da
designada "maternidade de substituição", o artigo 8.º é claro: "São
nulos os negócios jurídicos, gratuitos ou onerosos, de maternidade de
substituição." E, mais adiante: "A mulher que suportar uma gravidez de
substituição de outrem é havida, para todos os efeitos legais, como a
mãe da criança que vier a nascer."
A nulidade do negócio no nosso país leva algumas pessoas a optar por
empresas dos Estados Unidos. São os casos de mulheres que não têm útero,
ou têm malformações genéticas, ou ainda os casos de mulheres que tenham
sido operadas a um cancro uterino. Mas não são só mulheres que recorrem
às mães de substituição. Rosa Balcazar diz que "há muitos gays
que nos procuram, e as nossas mães de substituição mostram grande
abertura para trabalhar com eles".
As empresas norte-americanas - nos estados onde é legalmente possível
recorrer à maternidade de substituição - oferecem, nas suas páginas da
Internet, verdadeiros catálogos onde exibem as fotografias das mães de
substituição disponíveis, bem como informação específica sobre cada uma
delas. No site da clínica B Coming (www.b-coming.com),
basta clicar sobre uma das fotografias para ficar a saber vários
detalhes das candidatas a "barriga de aluguer", como: idade, etnia,
grupo sanguíneo, peso, altura, religião, habilitações literárias,
historial clínico e até pormenores sobre a personalidade.
A maior parte destas mulheres tem entre 25 e 35 anos e já tem um filho
(condição exigida, de resto, pela maioria das clínicas do género). O que
as move? Os directores das empresas garantem que não é o dinheiro.
Alice, uma das mães de substituição da CSP (Center for Surrogate
Parenting), uma clínica que há 23 anos se dedica a encontrar "barrigas
de aluguer" para os seus clientes, afiança que o dinheiro que ganhou não
foi o mais importante: "O que me motivou foi a possibilidade de ajudar
pessoas a conseguir a maior de todas as realizações: um filho." Alice já
foi mãe de substituição duas vezes. Ao todo, recebeu mais de 30 mil
euros.
Caro e complexo
Não fica barato recorrer a uma clínica americana deste género. Ao todo,
ter um filho em barriga alheia custa cerca de 67 mil euros. Rosa
Balcazar explica que o valor inclui "o pagamento da mãe de substituição,
as taxas legais, taxas da clínica, medicação, fertilização in vitro
e despesas da viagem".
O processo começa no país de origem, onde é exigido aos futuros pais que
se submetam a rigorosos exames. O passo seguinte é viajar para os
Estados Unidos, onde os advogados da empresa estabelecem as condições do
contrato. Tudo é acordado: se a mãe de substituição pode fumar ou não,
se pode sair à noite, o que pode comer e beber. A agência demora cerca
de dez dias a encontrar a "barriga de aluguer" adequada ao casal.
As mulheres que não têm útero, mas têm ovários, são então submetidas a
uma estimulação da ovulação através de fármacos que favorecem a produção
de óvulos. Cerca de quinze dias depois, os óvulos são retirados por via
vaginal e inseminados com esperma do futuro pai. Nesses casos, a mãe de
substituição é, apenas, a barriga onde é depositado o embrião.
Mas há mulheres que, além do útero, também não têm ovários. E, nesses
casos, Rosa Balcazar recomenda que se escolha outra mulher para fazer a
doação: "É uma questão de segurança. Uma mãe de substituição que é,
também, doadora de um óvulo, pode tornar a questão demasiado
complicada."
Psicologicamente e não só. Segundo o advogado Carlos Pamplona
Côrte-Real, especialista em Direito da Família, "a lei portuguesa define
que quem dá à luz é a mãe. Se a mãe de substituição vier dizer e provar
que foi ela quem deu à luz aquela criança, a mãe biológica pode ter
problemas. Mas, mediante testes de ADN, pode provar que o filho é seu".
O caso só se complicaria irremediavelmente se a mãe de substituição
tivesse também doado o seu óvulo. E é por ter conhecimento disso que
Rosa Balcazar, directora da B Coming, o desaconselha.
Ao longo da gravidez da mãe de substituição, o casal faz pelo menos três
visitas aos Estados Unidos, estando presente quando se aproxima a data
do nascimento. Caso a mãe de substituição não viva nos Estados Unidos e
habite num país onde esta prática não é permitida, regressa a casa após
o tratamento inicial, voltando à clínica na 30.ª semana de gravidez, de
modo a assegurar que tem a criança em território norte-americano. Rosa
Balcazar afirma ter "barrigas de aluguer" espalhadas um pouco por todo o
mundo. E também em Portugal.
Alice já foi mãe de substituição duas vezes. É norte-americana, tem um
filho e afirma ter um grande orgulho pela sua opção. E que nunca sentiu
qualquer vazio quando os seus pequenos hóspedes nasceram: "Foi muito
bonito entregá-los aos pais. Uma dádiva." Alice fez feliz um casal
heterossexual, primeiro, e um casal homossexual, da segunda vez. E está
pronta para continuar aquilo que define como "uma missão".
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