Presidente da CIDM critica lei da reprodução medicamente assistida
Sofia Branco
 
Público, 31-05-2006

AR acolheu seminário sobre igualdade de género, saúde sexual e reprodutiva e desenvolvimento

A presidente da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres (CIDM), Elza Pais, criticou ontem a recém-aprovada lei da reprodução medicamente assistida (RMA), que exclui o acesso de mulheres sós e a casais de lésbicas à maternidade de substituição.
A responsável do organismo governamental afirmou, no final de um seminário na Assembleia da República (AR), discordar do acesso exclusivo à técnica por parte de casais (casados ou unidos de facto), o que se traduz, concretizou, na exclusão de todos os que não cabem na designação de casal heterossexual.
Na sessão de encerramento do seminário estava também o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, que abanou a cabeça em discordância com as afirmações de Elza Pais, mas que não tocou no assunto durante a sua posterior intervenção.
Já antes, a RMA tinha gerado polémica, na sequência da intervenção de uma assistente, a propósito da apresentação de Ana Fernandes, técnica da Escola Nacional de Saúde Pública. Perguntou ela se não faria sentido, no quadro da promoção da natalidade e da sustentabilidade demográfica, ter permitido o acesso de mães solteiras à RMA. A deputada do PCP Odete Santos, que moderava a mesa, retorquiu: "Esse assunto não tem a ver com este debate [sobre a natalidade]." E considerou que os restantes oradores não estavam "habilitados" a responder.
O seminário - organizado pelo Grupo Parlamentar Português Sobre População e Desenvolvimento e pela Associação para o Planeamento da Família - abordou a igualdade de género e de oportunidades, a saúde sexual e reprodutiva, e os respectivos impactes no desenvolvimento.
A deputada belga Inga Verhaert instou os seus congéneres portugueses - passaram pelo encontro as deputadas Sónia Fertuzinhos e Celeste Correia (PS), Ana Manso (PSD, Helena Pinto e Alda Macedo (BE), Heloísa Apolónia (Os Verdes) - a intervirem mais. "As resoluções são apenas isso: resoluções. Tem de se vigiar a sua aplicação prática, falar delas, repetir, repetir, repetir", aconselhou. "Nós [na Bélgica] falamos com jornalistas o tempo todo, indignamo-nos, fazemos campanha. Afinal, somos deputados, é isso que sabemos fazer."
A temática da violência foi abordada pelo professor de Psicologia Carlos Poiares, que salientou a invisibilidade da violência psicológica e a ausência de estudos sobre esta. "Os problemas da violência não se resolvem com leis, é uma questão de ausência de cultura democrática. Precisamos de uma revolução cultural", alertou, acrescentando: "É dramático que tenhamos regredido tanto. O problema só se resolve a partir de uma política de cidadania e de direitos fundamentais."
Coube à ginecologista-obstetra Lisa Vicente referir vários indicadores de saúde alarmantes para as mulheres: maior vulnerabilidade a infecções sexualmente transmissíveis, menor controlo sobre o corpo e a sexualidade, gravidez não desejada. Mas nem só as mulheres são discriminadas. A saúde reprodutiva não é direccionada para homens, transgenders ou homossexuais. "Os nossos serviços de saúde e estratégias de intervenção na comunidade são heterossexuais", criticou.