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Implantar Um Ou
Dois Embriões no Útero Dá Níveis de Sucesso Iguais
Transferir para o útero da mulher um só embrião, em vez de dois, ou mais, durante um tratamento de fertilização médica assistida, não reduz as taxas de sucesso e diminui a probabilidade de nascimentos múltiplos, diz uma equipa australiana. Mas o estudo, divulgado no encontro anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, a decorrer em Madrid, não é tão linear como se apresenta. Alguns factos, como o número de ovócitos usados, são omitidos, explica Mário de Sousa, um especialista português em reprodução assistida. A equipa coordenada por Jim Catt, de Sydney, estudou 382 mulheres com idades inferiores a 38 anos. Entre estas, 107 optaram por receber apenas um embrião durante o tratamento de fertilização. As restantes receberam dois embriões da primeira vez. Entre as mulheres que receberam apenas um embrião, apenas se registaram três casos de gémeos (de gémeos resultantes da divisão de um único embrião, ou verdadeiros). Nas que optaram por receber dois embriões, houve 90 casos de gémeos. Mas foram as taxas de sucesso que espantaram os cientistas: 60 por cento, quer nos casos em que foram transferidos dois embriões quer nos casos de mulheres que apenas receberam um. A polémica sobre quantos embriões se deve transferir para o útero da mãe, após esta ter sido estimulada com hormonas para produzir um número elevado de hormonas e ter sido feita a fertilização "in-vitro" - junção dos gâmetas do pai e da mãe, realizada em laboratório - é um dos maiores problemas que se coloca à reprodução médica assistida. Em Portugal, na ausência de lei, vigoram apenas as limitações éticas da classe médica. É que quando se aumenta o número de embriões transferidos para o útero, aumenta-se o risco de gravidezes múltiplas, com todos os riscos que isso implica para a saúde da mãe e dos bebés. Mas é comum a transferência de dois embriões, pois o sucesso da técnica com a transferência de apenas um embrião é muito diminuto. "Resultados como os desta equipa só são conseguidos com um grande número de ovócitos. Em países como a Austrália, o número de ovócitos usados no tratamento é entre 14 e 16, mas nós usamos apenas cinco, por limitações éticas", explica Mário de Sousa, especialista em fertilização médica assistida e professor no Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, no Porto. "Ter mais óvulos significa mais probabilidade de um maior número deles se tornar viável e de conseguirmos seleccionar embriões mais resistentes", conclui. Apenas com cinco ovócitos disponíveis, os especialistas são obrigados, por vezes, a transferir os embriões ao fim do terceiro dia de cultura em laboratório, na fase em que a divisão celular vai em seis a oito células. Se não o fizerem, correm o risco de perder todos os ovócitos de que dispõem. Nesta fase, e com a transferência de dois embriões, a taxa de sucesso estima-se em 30 a 35 por cento. "O ideal seria também nós termos a possibilidade de usar 14 a 16 ovócitos. Os que não fossem usados seriam congelados e, caso o primeiro tratamento não resultasse, a mulher teria os seus ovócitos congelados à disposição, sem ter de se submeter de novo a uma indução hormonal para os produzir", conclui. Mário de Sousa. Cientistas Europeus Pedem
Continuação da Investigação Sobre Células Estaminais Arne Sunde, responsável pela unidade de fertilização médica assistida do Hospital Universitário de Trondheim, na Noruega, só hoje toma posse como presidente da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia. Mas ontem, durante o encontro anual deste organismo, em Madrid, Sunde não quis deixar de marcar a posição desta associação, que representa mais de 4000 especialistas europeus, face ao uso de células estaminais, da qual pode depender a terapêutica de doenças que ameaçam a humanidade. "A nossa sociedade compreende que as células estaminais sejam um tema sensível. Ninguém tem maior noção desse facto do que os nossos sócios, que lidam com embriões humanos todos os dias", referiu Arne Sunde, que deixa o recado aos responsáveis europeus que discutem agora a legislação, a nível comunitário, nesta matéria: "Sugiro aos membros do Parlamento Europeu que desejam tornar ilegal a investigação em células estaminais embrionárias que tentem falar com a comunidade médica e científica e que tenham em conta os efeitos que tal interdição teria na investigação e na sociedade, pois estariam a proibir a descoberta de terapias para algumas das mais graves doenças que afligem a humanidade." As células estaminais - que se encontram nos primeiros dias do embrião, e que dão origem a todos os tipos de células de um organismo adulto - dividem os países membros da UE. Na Alemanha, principal contribuinte orçamento da UE, a investigação em células estaminais é proibida. Por isso, o maior país da União Europeia acha que os outros estados o devem acompanhar. No fim de Março, o Comité de Ambiente e Saúde Pública do Parlamento Europeu sugeriu que se devia proibir a investigação com este tipo de células em todo o espaço comunitário. Mas países como o Reino Unido, França, Bélgica ou Suécia, onde a investigação em células estaminais embrionárias é autorizada, opõem-se à ideia. Em meados de Abril, um documento apresentado pelo Partido Popular Europeu, que propunha proibir a investigação em células estaminais embrionárias, bem como a clonagem reprodutiva e terapêutica e a criação de embriões para uso exclusivo da ciência, foi aprovado em primeira leitura, mas aguarda-se o resultado de uma segunda apreciação. "A investigação em células estaminais não embrionárias está também a evoluir. No futuro, células indiferenciadas isoladas de tecidos humanos adultos podem revelar-se muito importantes para a investigação e medicina. Mas haverá sempre necessidade de recorrer a células embrionárias para fins específicos", acrescentou Sunde. Ontem mesmo, durante o encontro a decorrer em Madrid, uma equipa da Universidade de Viena, Áustria, apresentou um estudo sobre a possibilidade de isolar células adultas pluripotentes - capazes de se transformarem em qualquer tipo de células - a partir do líquido amniótico, o líquido protector e fornecedor de nutrientes que envolve o bebé no útero materno. |