
O meu óvulo e o teu espermatozóide
João Miguel Tavares
jmtavares@dn.pt
"Infidelidade
consentida" - foi assim que os bispos portugueses classificaram o recurso à
procriação medicamente assistida (PMA) quando os espermatozóides ou os óvulos
utilizados no processo não forem os do próprio casal. Para a Igreja, pelos
vistos, para se ser infiel já não é preciso convocar um terceiro para a nossa
cama. Basta um espermatozóide em meio hospitalar. Um mero e microscópico
espermatozóide, que não tenha feito os sagrados votos do matrimónio. A gente
ouve e não acredita.
Não é que a PMA não possa levantar - e levanta - graves problemas éticos, sobre
os quais vale a pena reflectir. Para quem acredita que há vida no instante em
que há fecundação, é evidente que a questão dos embriões excedentários não pode
ser ignorada. Mas parece que a Igreja, em tudo o que está relacionado com a
reprodução e a vida sexual, não consegue resistir a dar sempre um passo para
além do razoável. Chamar "infidelidade consentida" ao desejo, tantas vezes
desesperado, de um casal em ter filhos é um completo absurdo, que só pode fazer
sentido dentro da cabeça dos bispos que esta semana se reuniram em Fátima.
Ora, o problema destas tiradas insensatas é que elas acabam por se voltar contra
a própria Igreja, contaminando os bons argumentos que ela também tem, sobre esta
e outras matérias. Ou seja, perante tais delírios, quem não for católico
fervoroso acaba por fechar automaticamente os ouvidos ainda antes de um bispo
começar a falar - a radicalização dos discursos é sempre um convite ao
preconceito. E a verdade é que no espaço de três dias, durante uma única
conferência episcopal, os bispos vieram para a praça pública dizer que não
reconhecem ao Parlamento competência para legislar em matéria de aborto - um
belo convite ao diálogo que atira imediatamente a Igreja para as velhas
trincheiras de 1998 e tritura as declarações equilibradas de D. José Policarpo -
e que a fidelidade entre um homem e uma mulher desceu ao nível do
espermatozóide. Os bispos estiveram em Fátima mas o Espírito Santo, esse, ficou
de fora.