Os benefícios das células estaminais


O que é uma célula estaminal? É uma «célula-mãe» com a capacidade de se desenvolver em diferentes tipos de tecidos. Quais os potenciais benefícios desta pesquisa? Imagine-se a possibilidade de se produzir em laboratório tecidos musculares, orgânicos e ósseos que possam ser implantados em doentes sem perigo da rejeição. Nesta perspectiva, os músculos cardíacos destruídos por um ataque de coração poderiam ser reparados. O mesmo se pode dizer relativamente aos tecidos cerebrais severamente danificados por um ataque. Algumas pessoas paralisadas por danos na espinal medula também poderiam voltar a andar. A investigação pode dar esperanças a pessoas que sofrem de doenças incuráveis? Doenças degenerativas, como as de Parkinson e Alzheimer, poderão ser tratadas com sucesso pela primeira vez. Será que a investigação em células estaminais pode obter ainda melhores resultados? Alguns peritos estimam que, dentro de 30 anos, se poderá obter corações, fígados e membros em laboratório. Quem se opõe à investigação das células estaminais? As associações anti-aborto recordam que esta investigação resulta na destruição de embriões. O lobby religioso também é muito forte. Quando o Papa João Paulo II visitou o Presidente dos EUA, George Bush, em 2002, considerou que esta investigação se assemelha ao infanticídio.

DN 20.06.03

 

Nascimento de bebé para salvar irmão doente gera polémica


O nascimento, na segunda-feira, em Sheffield, de Jason Whitaker _ concebido através de fecundação in vitro nos EUA, com o objectivo de utilizar as células estaminais do seu córdão umbilical no tratamento de um irmão mais velho _ está a gerar polémica no Reino Unido.

O bebé foi geneticamente seleccionado na fase embrionária por ser quase perfeitamente compatível com o irmão, Charlie, de quatro anos, que sofre de uma rara e potencialmente fatal forma de anemia. A doença requer um doloroso tratamento: submete-se a transfusões sanguíneas de três em três semanas e, cinco noites por semana, aplicam-lhe durante 12 horas injecções no estômago.

Este tipo de selecção genética _ que, no caso, foi utilizada no Instituto de Genética Reprodutiva, em Chicago _ ainda não é oficialmente aceite no Reino Unido.

No ano passado, as autoridades britânicas recusaram à família Whitaker a possibilidade de testes genéticos em embriões, alegando que a prática não seria ética. Por isso, viajaram para os EUA. O pai, Jayson Whitaker, alega que «o que fizemos foi apenas alterar as hipóteses de um em quatro para 98 por cento de compatibilidade de tecidos. Não houve nenhuma selecção com base na cor dos olhos, do cabelo ou do sexo.»

Depois da fertilização in vitro foram recolhidas algumas células do córdão umbilical de Jamie, como já é conhecido, e uma amostra foi analisada no instituto de Chicago. Agora, os pais de Charlie e de Jamie vão ter de esperar seis meses para saber se o bebé é totalmente compatível ou se, pelo contrário, também sofre do mesmo tipo de doença, cujo nome científico é anemia de Diamond Blackfan. Só depois, a conselho médico, se fará o transplante de células.

A polémica estalou. Um deputado britânico, Evan Harris, foi taxativo em declarações à BBC: «esta é a altura certa para o Governo permitir ao Parlamento o debate em torno da Lei da Fertilidade Humana e Embriologia, de forma a que este tipo de tratamento se passe a realizar no nosso país.» Em contrapartida, John Smeaton, director de uma ONG, alegou que «os seres humanos que não eram completamente compatíveis foram descartados, e uma criança nasceu com o objectivo principal de beneficiar o irmão mais velho. Isto não respeita a dignidade humana de Jamie.»

A verdade é que algo já mudou. Ao contrário dos Whitaker, outro casal britânico ganhou recentemente o direito a optar pela mesma prática após um recurso judicial lhes ter dado razão. Raj e Shahana Hashmi, após um tratamento in vitro, vão ter um bebé e esperam que as suas células sejam totalmente compatíveis com as de um irmão mais velho, Zain, de quatro anos, que sofre de uma doença hereditária.