Cientistas Europeus Pedem Continuação da Investigação Sobre Células Estaminais
Por ANA MACHADO
Terça-feira, 01 de Julho de 2003

Arne Sunde, responsável pela unidade de fertilização médica assistida do Hospital Universitário de Trondheim, na Noruega, só hoje toma posse como presidente da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia. Mas ontem, durante o encontro anual deste organismo, em Madrid, Sunde não quis deixar de marcar a posição desta associação, que representa mais de 4000 especialistas europeus, face ao uso de células estaminais, da qual pode depender a terapêutica de doenças que ameaçam a humanidade.

"A nossa sociedade compreende que as células estaminais sejam um tema sensível. Ninguém tem maior noção desse facto do que os nossos sócios, que lidam com embriões humanos todos os dias", referiu Arne Sunde, que deixa o recado aos responsáveis europeus que discutem agora a legislação, a nível comunitário, nesta matéria: "Sugiro aos membros do Parlamento Europeu que desejam tornar ilegal a investigação em células estaminais embrionárias que tentem falar com a comunidade médica e científica e que tenham em conta os efeitos que tal interdição teria na investigação e na sociedade, pois estariam a proibir a descoberta de terapias para algumas das mais graves doenças que afligem a humanidade."

As células estaminais - que se encontram nos primeiros dias do embrião, e que dão origem a todos os tipos de células de um organismo adulto - dividem os países membros da UE.

Na Alemanha, principal contribuinte orçamento da UE, a investigação em células estaminais é proibida. Por isso, o maior país da União Europeia acha que os outros estados o devem acompanhar. No fim de Março, o Comité de Ambiente e Saúde Pública do Parlamento Europeu sugeriu que se devia proibir a investigação com este tipo de células em todo o espaço comunitário. Mas países como o Reino Unido, França, Bélgica ou Suécia, onde a investigação em células estaminais embrionárias é autorizada, opõem-se à ideia.

Em meados de Abril, um documento apresentado pelo Partido Popular Europeu, que propunha proibir a investigação em células estaminais embrionárias, bem como a clonagem reprodutiva e terapêutica e a criação de embriões para uso exclusivo da ciência, foi aprovado em primeira leitura, mas aguarda-se o resultado de uma segunda apreciação.

"A investigação em células estaminais não embrionárias está também a evoluir. No futuro, células indiferenciadas isoladas de tecidos humanos adultos podem revelar-se muito importantes para a investigação e medicina. Mas haverá sempre necessidade de recorrer a células embrionárias para fins específicos", acrescentou Sunde.

Ontem mesmo, durante o encontro a decorrer em Madrid, uma equipa da Universidade de Viena, Áustria, apresentou um estudo sobre a possibilidade de isolar células adultas pluripotentes - capazes de se transformarem em qualquer tipo de células - a partir do líquido amniótico, o líquido protector e fornecedor de nutrientes que envolve o bebé no útero materno.