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Investigação em células estaminais:
uma perspectiva europeia
Peter Liese,
médico, cientista e eurodeputado
Conferência no Gabinete do Parlamento
Europeu, em Lisboa, promovida pelo Conselho
Económico-Social/Gabinete de Estudos do CDS-PP
Minhas Senhoras e
Meus Senhores,
Caro José Ribeiro
e Castro,
Gostaria de
agradecer muito o convite para falar perante
audiência tão ilustre hoje em Lisboa. Quero também
agradecer a todos os que ajudaram na organização
deste encontro, especialmente a José Ribeiro e
Castro.
José Ribeiro e
Castro é, segundo sei, um político proeminente e
influente em Portugal mas, posso assegurá-lo, é
também extremamente influente e activo no Parlamento
Europeu. Ele é o porta-voz do maior grupo político
para os Direitos Humanos e, para além disso,
trabalhou muito e ajudou bastante para promover o
debate da matéria que hoje discutimos no seio do
Parlamento Europeu.
Claro que, como
membro do grupo PPE-DE no Parlamento Europeu, não
posso deixar de homenagear o Presidente da Comissão
Europeia José Manuel Barroso que, em minha opinião,
está a desenvolver um trabalho muito bom em tempos
difíceis para a União Europeia. Relativamente à
questão que debatemos hoje, José Manuel Barroso
promoveu também iniciativas muito importantes:
durante a negociação do 6.º programa-quadro sobre
investigação, o governo português, liderado pelo
Senhor Barroso, propôs um compromisso muito
importante que, em meu entender, constitui ainda a
única hipótese de superar a controvérsia dentro e
entre as instituições europeias que já dura há
vários anos.
Por último,
gostaria de me referir a Jorge Moreira da Silva.
Jorge Moreira da
Silva, do PSD, foi um colega muito activo no
Parlamento Europeu e, depois, Secretário de Estado
para a Investigação e, mais tarde, Secretário de
Estado para o Ambiente no Governo Barroso. As suas
contribuições e iniciativas foram sempre muito
úteis.
Minhas Senhoras e
Meus Senhores,
A questão de como
lidar com a clonagem humana, a investigação em
embriões humanos e em células estaminais
embrionárias é muito controversa em quase todos os
países da Europa.
Há argumentos
fortes a favor de uma abordagem muito permissiva e
há igualmente argumentos fortes a favor de uma
estrita limitação e proibições deste tipo de
pesquisa.
O debate toca uma
série de aspectos dos quais darei adiante mais
detalhes mas gostaria de sublinhar dois aspectos
importantes no início da minha intervenção:
Primeiro,
biotecnologia não é igual a clonagem e investigação
em embriões humanos. Estou convencido que a
biotecnologia é necessária para superar muitos dos
nossos problemas, no futuro. Não resolveremos os
nossos problemas energéticos, ambientais e de saúde
sem a biotecnologia. Existem muitas tecnologias que
ajudam verdadeiramente e que não contendem com
preocupações éticas fundamentais. Ser a favor da
biotecnologia não significa ser a favor de todas as
suas possíveis aplicações.
Em segundo lugar,
segui em detalhe o debate sobre a clonagem e
investigação em embriões humanos que teve lugar em
Espanha e, de acordo com o que tenho visto
recentemente, existe um debate bastante semelhante
em Portugal. Sinto que, particularmente em Espanha e
Portugal, aqueles que estão contra todo o tipo de
clonagem humana e investigação em embriões humanos
são vistos como um grupo cada vez mais pequeno de
pessoas muito conservadoras ou muito católicas.
Parece ser opinião geral que quem é a favor da
investigação em embriões humanos é considerado
progressista.
Minhas Senhoras e
Meus Senhores,
A estrutura do
debate não é assim em outros países europeus e nas
instituições europeias. Se pretenderem um exemplo
disso mesmo, gostaria de referir que, na terça-feira
passada, a Comissão para os Direitos da Mulher no
Parlamento Europeu adoptou por unanimidade, 27 votos
contra 0, um parecer sobre o Futuro da Política de
Investigação da União Europeia. A Comissão dos
Direitos da Mulher fez incluir uma alteração neste
documento afirmando que nenhum tipo de investigação
em embriões humanos e células estaminais
embrionárias devia ser financiado através do
orçamento da União Europeia. Esta alteração
específica foi alvo de controvérsia mas foi votada
favoravelmente por uma maioria estável. Como podem
imaginar, os membros da Comissão de Direitos da
Mulher não são - ocorre no Parlamento Europeu como
nos Parlamentos Nacionais - aqueles que assumem as
posições mais tradicionais ou que são mais
influenciados pela Igreja Católica. É opinião de
muita gente através da Europa que, especialmente de
uma perspectiva dos Direitos da Mulher, que devemos
ser contra este tipo de investigação.
Antes de
caracterizar um pouco mais a situação política dos
diferentes Estados-Membros e das instituições
europeias, gostaria de lhes apresentar mais alguns
aspectos da base científica destas nossas
discussões.
(Aspectos científicos: ver anexo;
NOTA: as transparências apresentadas pelo autor não
estão disponíveis)
Peço desculpa a
todos os que já conhecem estes aspectos mas a
experiência diz-me que a terminologia e antecedentes
científicos se revelam extremamente confusos para
muitas pessoas, pelo que entendo ser melhor
explicá-los antes de começar um debate político
detalhado.
Minhas Senhoras e
Meus Senhores,
A legislação sobre
tecnologias de que lhes falei difere muito por toda
a Europa. Não há nenhum país na Europa que bana em
absoluto a investigação em células estaminais. A
investigação com células estaminais adultas, com
células estaminais provenientes do cordão umbilical
e outras alternativas são autorizadas e apoiadas em
todos os 25 Estados-membros. Mas a legislação
relativa à investigação em embriões humanos e em
células embrionárias estaminais varia muito.
Alguns países são
muito permissivos. Por exemplo, na Bélgica e no
Reino Unido é permitido não só usar embriões humanos
para fins de investigação, como produzir embriões
humanos com esse único fim. Nove países baniram
expressamente todo o tipo de investigação que
implique a destruição de embriões humanos. Estes
países são a Alemanha, a Áustria, a Itália, a
Polónia, a Eslováquia, Malta, a Irlanda, o
Luxemburgo e a Lituânia. Poderão constatar que entre
estes países não se contam apenas os chamados países
católicos. Mas, se me permitem, gostaria de
discorrer um pouco mais acerca da situação no país
que melhor conheço, a Alemanha.
As pessoas de fé
católica claramente não detêm uma posição
maioritária na Alemanha. A lei de protecção do
embrião de 1991 proíbe qualquer tipo de investigação
em embriões humanos se esta estiver relacionada com
a sua destruição. É claro que esta lei de 1991 não
cobre a questão das células estaminais embrionárias
porque estas não existiam à época. O investigador
americano Thompson publicou este tipo de
investigação apenas em 1998, no Wisconsin, Estados
Unidos. Este novo desenvolvimento originou um
intenso debate na sociedade alemã e no Parlamento
nacional (Bundestag). Depois desta discussão
intensa, uma grande maioria no Parlamento nacional
decidiu manter a protecção ao embrião humano e não
abolir a proibição de investigação. Esta decisão foi
apoiada não só pelos deputados Democratas-Cristãos,
que estavam na oposição naquele tempo, mas também
pelos Verdes e pela maioria dos Sociais-Democratas
daquela câmara. Não foram apenas os católicos
alemães que apoiaram esta decisão - de acordo com
uma sondagem publicada antes da tomada da decisão, a
percentagem de protestantes que estava contra a
investigação destrutiva de embriões humanos era mais
elevada que a de católicos e mais de 50% dos
não-crentes na sociedade alemã aprovavam esta
abordagem rigorosa.
Quais foram os
argumentos invocados pelos deputados do nosso
Parlamento para manter a interdição à investigação
destrutiva de embriões?
Havia,
evidentemente, o argumento da protecção do princípio
da vida humana. É difícil arguir que a vida começa
noutro momento que não no da fertilização. É claro
que existem outras opiniões, mas os meus colegas
estavam convencidos que seria melhor ser cauteloso e
aplicar o Princípio da Precaução nos casos em que
não se está seguro. Note-se que votaram a favor da
protecção do embrião muitos deputados que não são a
favor da proibição de todos os tipos de aborto. Este
ponto tem sido levantado especialmente por
feministas que consideram que a situação difícil em
que se encontra uma mulher em estado de gravidez
indesejada não pode ser comparada com o contexto de
um investigador. A este propósito, as promessas
muito hipotéticas de investigação em células
estaminais e as vantagens da investigação em células
adultas vêm sendo mencionada.
Atendendo a que os
apoiantes da investigação em células estaminais
embrionárias defendem a necessidade de criação de
embriões clonados para superar o problema da
rejeição de tecidos, o segundo grande argumento foi
o de que este tipo da dita clonagem terapêutica
conduziria inevitavelmente à clonagem reprodutiva
porque a tecnologia utilizada é a mesma em ambos os
casos.
Um terceiro
argumento importante foi o perigo de exploração das
mulheres por via do comércio de óvulos. Não é
possível criar um embrião humano sem o óvulo de uma
mulher. Não se pode clonar um embrião humano sem o
recurso a muitos óvulos humanos e a sua
disponibilidade é diminuta no que toca a
fertilizações in vitro. Esta falta originou já
actividades ilegais de clínicas britânicas de
fertilização na Roménia. Infelizmente, as
autoridades britânicas ainda não conseguiram pôr
cobro ao problema. Calcula-se que, com risco da
própria vida, milhões de mulheres se sujeitariam a
este processo de obtenção de óvulos se a dita
"clonagem terapêutica" fosse aplicada em larga
escala.
Estes têm sido os
argumentos mais importantes do debate alemão. Em
minha opinião, também foi relevante o facto de a
indústria não ter pressionado verdadeiramente a
favor de uma liberalização. Existem, é claro, alguns
representantes de indústrias que solicitam regras
mais permissivas, mas a maioria dos líderes
industriais compreende que este não é o melhor
caminho e que existem muitas alternativas que estão
muito mais próximas do paciente e, por isso, estão
também mais próximas do mercado.
É claro que a lei
alemã tem uma fraqueza e, em debates europeus,
aqueles que não a conhecem em detalhe acusam-na de
ser a solução mais hipócrita. Eu não partilho este
ponto de vista, mas reconheço que se trata de uma
área problemática. Como referi, os deputados do
Bundestag mantiveram a proibição de qualquer tipo de
investigação destrutiva em embriões humanos mas,
como sabem, as células embrionárias estaminais não
são embriões. Um embrião, se implantado no ventre,
tornar-se-á um bebé. Um embrião é um ser humano.
De acordo com a
maioria dos cientistas, as células estaminais
embrionárias não são embriões, não serão aptas a
criar um bebé. É por isso que a maioria do Bundestag
admitiu uma excepção à proibição geral de investigar
em células estaminais embrionárias sob a condição de
que se encontrem preenchidos certos requisitos. É
claro que se pode dizer que isto é hipócrita; as
pessoas dizem que a Alemanha baniu a investigação
com embriões humanos enquanto importa embriões ao
mesmo tempo. Isto não corresponde à verdade, porque
as células estaminais embrionárias não são embriões.
Não obstante, permanece um problema ético porque a
permissão da investigação em células estaminais
embrionárias sem a aceitação da sua produção pode
conduzir a uma situação em que a exigência da
obtenção destas células por parte dos investigadores
alemães origine a destruição de embriões no
estrangeiro.
É por isso que
muitos dos que se envolveram neste debate, incluindo
eu próprio, recomendaram a proibição total. Mas há
que reconhecer um ponto importante: o Parlamento
alemão não autorizou a importação de novas células
estaminais embrionárias, apenas podem ser utilizadas
pelos investigadores alemães as células importadas
que foram criadas antes da adopção da lei. As
células já tinham sido obtidas a partir dos embriões
e já existiam assim. O dilema ético não é, portanto,
tão dramático.
Como disse,
recomendei aos meus colegas no Parlamento nacional
que não consentissem tal excepção, porque teria sido
preferível um “não” claro à investigação em células
estaminais embrionárias e a concentração de todos os
esforços para progredir no tocante às células
estaminais adultas e outras alternativas. Por outro
lado, existe a sensação geral de que não se deve
proibir completamente este tipo de investigação e
nesta situação, a lei alemã oferece uma
possibilidade que evita o conflito fundamental. A
decisão alemã foi inspirada pelas regras americanas.
O NIH, perto de Washington, aplica esta mesma regra.
Também a proposta de compromisso portuguesa para uma
solução europeia, promovida por José Manuel Barroso
e Jorge Moreira da Silva em 2003, assenta sobre este
princípio.
É de notar que
estes compromissos não autorizam ou apoiam a
investigação com os chamados embriões
supranumerários. Sejam ou não chamados
“supranumerários”, de acordo com a lei de muitos dos
Estados-membros, os embriões são seres humanos e é
por isso que não devem ser usados em investigação
que envolva a sua destruição.
Voltarei a este
ponto mais tarde.
Minhas Senhoras e
Meus Senhores,
O Princípio da
protecção do embrião humano é não apenas o
fundamento da lei alemã das células estaminais como
é respeitado na medicina reprodutiva. Em muitos
países europeus existem centenas de milhar de
embriões congelados, porque a forma como a
fertilização in vitro é conduzida na maioria dos
países leva à criação de mais embriões do que
aqueles que serão implantados no ventre. Na
Alemanha, legislámos no sentido de impor outra
tecnologia: a FIV é possível, mas apenas são
produzidos os embriões que podem ser implantados no
ventre. É por isso que, na Alemanha, não temos
centenas de milhar de embriões supranumerários. De
acordo com um estudo do Ministério Nacional da Saúde
realizado há algum tempo, existiam apenas cerca de
100 embriões congelados na Alemanha. Na sua maioria
não estão congelados por mais de um par de semanas e
são-no porque existe um período que medeia entre a
sua criação e a implantação e durante este tempo
diversas coisas podem suceder à mulher, como um
acidente ou uma infecção, que podem implicar o seu
adiamento.
Tenho que admitir
que a taxa de sucesso da FIV na Alemanha é
ligeiramente inferior à de outros países mas é
possível. Em minha opinião, esta pequena diferença
não é muito relevante porque a FIV não é muito bem
sucedida de qualquer forma, mesmo nos países com
regulação mais permissiva. Mas penso que devemos
todos trabalhar para um melhoramento da tecnologia:
tratamentos de fertilidade têm que ser melhorados
sem que sejam criados milhares dos ditos embriões
supranumerários.
Minhas Senhoras e
Meus Senhores,
A Alemanha não é o
único país que, após um debate longo e intenso,
adoptou uma lei orientada pela protecção do embrião
humano. O cenário em Itália é bastante semelhante: a
algum tempo atrás, uma iniciativa interpartidária
adoptou uma lei que, tal como na Alemanha, proíbe
qualquer tipo de investigação em embriões humanos,
quando esta implicar a sua destruição e impõe regras
similares para a FIV. Apesar de ter existido uma
ampla maioria interpartidária em apoio desta lei,
alguns políticos arguiram que a maioria da sociedade
tinha uma opinião completamente diferente e lançaram
um referendo a este respeito. O referendo para
revogar a lei italiana de protecção do embrião
falhou dramaticamente: apenas 15% da população votou
a favor da mudança da lei e isto sucedeu apesar da
influência que muitas associações e políticos
moveram a favor do voto favorável em referendo.
Fizeram-no não apenas o partido radical e alguns
membros do Partido Socialista mas também o Ministro
dos Negócios Estrangeiros e líder da Allianza
Nazionale Gianfranco Fini. Esta é outra prova para
os que pensam que esta matéria é apenas um assunto
de “esquerda-direita”. É de notar que a maior parte
dos membros do Margarita, partido do líder da
oposição Romano Prodi, que faz parte do partido
liberal no Parlamento Europeu, votaram contra o
referendo ou abstiveram-se para que não passasse e
Gianfranco Fini não é, definitivamente, um político
de esquerda ou mesmo de centro De certo modo, a sua
Alianza Nazionale é a sucessora do partido fascista
de Mussolini. É claro que o partido mudou ao longo
do tempo, mas qualquer político médio da esquerda
europeia verá Fini como um inimigo político
importante.
Minhas Senhoras e
Meus Senhores,
Gostaria agora de
descrever o debate no seio das instituições
europeias.
O Parlamento
Europeu discutiu já por várias vezes os assuntos que
hoje debatemos. Algumas questões são muito
controversas e não antevemos uma opinião
estabilizada e final sobre elas, especialmente
depois do resultado das eleições do ano passado. Mas
uma coisa tem sido clara ao longo dos anos: o
Parlamento Europeu é contra qualquer tipo de
clonagem humana. Apoiámos uma iniciativa da Costa
Rica de proibição todos os tipos de clonagem humana
(clonagem reprodutiva e a dita clonagem terapêutica
ou clonagem para investigação) ao nível das Nações
Unidas. Congratulo-me com o facto de o governo de
José Manuel Barroso também apoiou esta iniciativa
junto das Nações Unidas. O Parlamento Europeu
expressou por diversas vezes o seu apoio à
iniciativa da Costa Rica. Citarei a este propósito
apenas as decisões mais importantes. A este
respeito, num relatório sobre o futuro da
biotecnologia que é bastante positivo quanto a esta
matéria, apresentado pela antiga deputada socialista
portuguesa, Elisa Damião, o Parlamento Europeu
decidiu pronunciar-se da seguinte forma: "[O
Parlamento Europeu] reitera a sua insistência quanto
à necessidade de existir uma proibição universal e
específica da clonagem de seres humanos em todos os
seus estados de formação e desenvolvimento ao nível
das Nações Unidas e urge a Comissão e os
Estados-membros a trabalharem visando este fim.
Repetimos esta
posição em Janeiro do ano passado quando apreciámos
estas questões relativas às Nações Unidas mais
detalhadamente na presença do Secretário-Geral Kofi
Annan que recebeu um prémio do Parlamento Europeu
concedido às Nações Unidas pelo seu trabalho em todo
o mundo. Na mesma reunião em que atribuímos o prémio
a Kofi Annan, adoptámos uma resolução acerca do
relacionamento entre a União Europeia e as Nações
Unidas. Sobre a clonagem, dissemos “(O Parlamento
Europeu) reitera o seu apelo para uma proibição da
clonagem de seres humanos à escala mundial e apoia a
iniciativa da Costa Rica neste sentido e a decisão
da Assembleia-Geral das Nações Unidas de trabalhar
para uma convenção em 2004”. O Parlamento Europeu
está contra todos os tipos de clonagem humana e,
caso exista essa oportunidade, não deixará
certamente de tentar colocar em vigor uma proibição
à escala europeia. É com satisfação que registamos
que a iniciativa da Costa Rica, apoiada pelo antigo
governo português e por uma série de outros governos
conduziu à adopção de uma resolução no quadro das
Assembleia-Geral das Nações Unidas por uma maioria
de quase dois terços que solicitava aos
Estados-membros a proibição da clonagem humana.
É natural que, no
Parlamento Europeu, concordemos em não financiar
através da Política Europeia de Investigação aquilo
que queremos ver banido em todo o mundo. Assim, sob
o sexto Programa-quadro de Investigação, é excluída
toda a investigação que esteja ligada à clonagem
humana e continuará a sê-lo no sétimo
Programa-quadro. O debate sobre os embriões ditos
supranumerários é mais complicado, como disse, em
países como a França. Espanha e Reino Unido,
centenas de milhar de embriões estão congelados
porque num tratamento de FIV são produzidos mais
embriões do que os que são implantados. Muitos
políticos no Parlamento Europeu e, segundo creio,
também aqui em Portugal argúem que é melhor utilizar
estes embriões para investigação do que destrui-los
simplesmente. Penso que esta questão não é simples:
antes de mais, temos que reconhecer que há
alternativas. É possível realizar tratamento de FIV
sem a produção de embriões supranumerários. Devemos
desencorajar os médicos e investigadores de
utilizarem estas tecnologias que implicam a
utilização de embriões supranumerários. É também
possível a casais inférteis adoptar esses embriões
(isto já foi feito, por exemplo, nos Estados
Unidos). Poderia acrescentar muitos outros
argumentos mas o mais relevante, especialmente
depois dos mais recentes desenvolvimentos, é que não
se pode saber ou controlar com segurança se um
embrião é verdadeiramente supranumerário. Os
investigadores que esperam utilizá-los argumentam
que estes seriam sempre destruídos, mas será
verdadeiramente assim?
As questões do
controlo e da pressão assumem particular
importância. É prática comum por exemplo, no Reino
Unido, que pais que se submetem a tratamentos de
fertilidade sejam interpelados para doar alguns dos
seus embriões para fins de investigação. Na
circunstância de se verificar a doação, outros
embriões são congelados gratuitamente para o caso de
o casal querer ter outro filho anos mais tarde. No
caso de não quererem doar, a congelação é-lhes
cobrada por uma quantia elevada de dinheiro. Estes
embriões são supranumerários ou são produzidos para
fins de investigação? Os mesmos problemas aplicam-se
à exigência de que nenhum incentivo financeiro deve
ser concedido para a doação de embriões ou de
óvulos. É claro que todos os promotores da
investigação com embriões supranumerários excluem
qualquer tipo de pressão financeira. Mas este facto
é difícil de controlar. Por vezes, as autoridades
não estarão mesmo na disposição de exercer este
controlo. A BBC noticiou que centros de fertilidade
britânicos pagaram grandes somas de dinheiro a
mulheres romenas para que estas doassem os seus
óvulos. Este óvulos foram fertilizados na Roménia
com esperma de homens britânicos e foram implantados
nos ventres das mulheres desses homens. Em meu
entender e no entender do Parlamento Europeu isto
trata-se claramente de um caso de tráfico de óvulos
e embriões humanos e configura um caso de exploração
comercial do corpo humano proibida pela legislação
europeia. Mas as autoridades britânicas dizem não
ter encontrado nenhuma prova de quaisquer
pagamentos. Os responsáveis da BBC com quem falei
demoraram apenas dois dias a obter as referidas
provas. A televisão alemã fez a mesma experiência.
Isto demonstra que, quando existe vontade de aplicar
estas tecnologias, os limites que são impostos podem
ser torneados facilmente. É por isso que
necessitamos de estabelecer regras que possam ser
fiscalizadas devidamente. Isto é ainda mais
relevante após o escândalo Hwang na Coreia do Sul.
Creio que a maioria terá ouvido que o investigador
Hwang afirmou ter clonado embriões humanos e que
produziu células específicas para os seus pacientes.
Foi louvado por muitos dos denominados políticos
“liberais-progressistas” e por quase toda a
comunidade científica por este feito e até referido
como sendo um possível candidato ao prémio Nobel.
Durante as últimas semanas tornou-se óbvio que todo
o estudo tinha sido forjado ( a propósito: foi
também provado que Hwang forçou uma investigadora da
sua equipa a doar óvulos para o estudo). Na minha
opinião, o verdadeiro escândalo não é alguém ter
falsificado uma publicação; o escândalo é que toda a
comunidade científica não foi capaz de provar que
era falsa. E prová-lo teria sido muito simples. Já
foi mencionado que trabalhei em genética humana, e
sei que identificar se o ADN das células é idêntico
ao ADN do doente é uma tarefa muito fácil. Não é
possível provar que os embriões são criados para
investigação e não são supranumerários com a actual
tecnologia. Não há nenhum método científico que o
determine. Assim como é extremamente difícil provar
que não foi concedido nenhum incentivo, que nenhuma
comercialização teve lugar. Assim, creio que, ao
contrário da anterior legislatura, temos hoje no
Parlamento Europeu uma maioria também contra o
financiamento da investigação nos ditos embriões
supranumerários.
Em Março do ano
passado, adoptámos uma alteração a um relatório que
solicita a exclusão de toda a investigação em
embriões dos programas da União Europeia e, tal como
já disse, a Comissão de Direitos da Mulher adoptou
outra alteração com o mesmo conteúdo na passada
terça-feira.
Para além dos que
já referi, existe um argumento que tem que ser
sublinhado uma e outra vez nestes debates: o de que
as células embrionárias humanas originam o cancro
quando transplantadas para o corpo humano. A razão
porque nenhum investigador em todo o mundo
transplantou ainda células embrionária estaminais
para um paciente é o risco de cancro. A
característica das células embrionárias estaminais
humanas é que estas crescem muito, o que é bom para
a investigação mas mau para o paciente quando
transplantadas. Vários especialistas testemunharam
no Parlamento Europeu que este não só não é um
problema menor como é extremamente difícil de
superar.
Minhas Senhoras e
Meus Senhores,
Gostaria de
concluir dizendo que é evidente que a forma como
Portugal decidirá como lidar com estas questões será
uma decisão nacional, e não é minha função, como
Deputado ao Parlamento Europeu, redigir uma lei para
Portugal. Mas gostaria de lhes pedir o seguinte: por
favor tomem uma decisão informada e não usem os
argumentos errados.
Quando se diz “na
Europa, a regulamentação é mais permissiva”, isto
não é verdade, pelo menos para 9 dos 25 países.
Portugal ficará em boa companhia se mantiver a
protecção do embrião.
Quando dizem que
“apenas os católicos conservadores e
tradicionalistas são a favor da protecção do
embrião”, isto também não é verdade. Noutros países
e nas instituições europeias muitos liberais,
verdes, socialistas e comunistas chegaram à mesma
conclusão de que é melhor usar de cautela nesta
matéria.
Quando se afirma
que “apenas a investigação em células estaminais
embrionárias poderá curar os doentes de Parkinson,
Alzheimer e outras doenças similares”, isto também
não é verdade. Neste momento, as provas científicas
disponíveis tendem a fortalecer o argumento de que
as células estaminais adultas são a solução a
preferir.
Muito obrigado
pela vossa atenção. |