Ciclo de Colóquios «Despertar para a Ciência»
Alexandre Quintanilha diz que é cedo para clonar humanos
O biofísico acredita que a técnica ainda está pouco desenvolvida, «primeiro é preciso conhecer melhor e experimentar»

Defensor dos benefícios que a clonagem pode trazer à humanidade, o biofísico Alexandre Quintanilha acredita que a tecnologia ainda precisa de percorrer um longo caminho até estar à altura da clonagem de humanos. O cientista falava na terça-feira, no ciclo de colóquios «Despertar para a Ciência», na sede da Fundação Gulbenkian em Lisboa. Durante a conferência, sob o tema «Manipulação Genética: Medos e Esperanças», Quintanilha frisou que não são as questões éticas que o preocupam acerca da clonagem humana, mas sim o estado actual das técnicas, ainda pouco desenvolvidas para servir um fim tão ambicioso: «primeiro é preciso conhecer melhor e experimentar» em animais. O investigador alertou, inclusive, que ainda é precoce pensar em clonar o animal geneticamente mais próximo do homem, o chimpanzé.

O director do Instituto de Biofísica Molecular e Celular (IBMC), no Porto, apresentou à audiência vários argumentos para desmontar «ideias feitas» acerca da técnica da clonagem. «Estamos cheios de medo da clonagem e não tememos a clonagem cultural», fazendo alusão às mortes provocadas pelos regimes de Hitler e Estaline. Quanto à noção de que, recorrendo à clonagem se está a mexer na «obra da Natureza», Quintanilha não tem dúvidas: isso já é feito através das vacinas, dos antibióticos e dos transplantes.

Pesando ambos os pratos da balança, Quintanilha defende que os «enormes benefícios» que a clonagem pode trazer à Humanidade são suficientes para enfrentar os riscos que o recurso à técnica acarreta. O biofísico aludiu à possível existência futura de um «cartão genético», que trará consigo grandes problemas. Por exemplo, a recusa de emprego ou de uma seguradora na hora de fazer um seguro de vida. «Mas isso já acontece. Não é novo», assegura, sustentando a afirmação com o caso dos doentes com sida que já são recusados pelas seguradoras.

Em balanço, Quintanilha acredita que a manipulação genética «pode ser perigosa se for mal utilizada, mas muito útil se for bem aplicada». Como exemplo refere a possibilidade que fica aberta para resolver problemas que assolam o mundo, como a fome, a poluição ou o esgotamento de recursos naturais: criar plantas com mais nutrientes, que consumam menos água e necessitem de menor quantidade de produtos químicos.

Fonte: Lusa

 

[17 de Julho de 2003]