A Prole da Ciência


   Em 1978, o nascimento de Louise Brown, o primeiro bebê gerado in vitro, na Inglaterra, além de ter levantado polêmica - e assustado o mundo - acendeu uma esperança na vida daquelas pessoas que até então não conseguiam ter filhos. É uma surpreendente ação da ciência, fiel escudeira da natureza. Suas descobertas geram técnicas que, por sua vez, podem ajudar casais a ter bebês: trata-se da chamada reprodução assistida.


   Os métodos da reprodução assistida vão desde uma simples orientação, uma avaliação do folículo ovariano ou do dia ideal para o coito, até procedimentos mais sofisticados. Os principais são a inseminação artificial, que exige a preparação do sêmen e sua colocação no útero; e a fertilização in vitro, para qual o óvulo precisa ser retirado e colocado com o espermatozóide em uma incubadora - que imita o corpo humano - para que haja a penetração. Se ocorrer a fertilização e depois a duplicação das células até o estágio de pré-embrião (quatro a oito células), este deve ser transferido para o óvulo.

Clique nas imagens e acompanhe a evolução de um embrião em apenas 3 dias após a fertilização in vitro

Imagens cedidas pelo Serviço de Ecografia, Genética e Reprodução Humana

   Quando procurar ajuda?

   A curva reprodutiva na espécie humana é de 15% a 25%. Esse índice pode chegar a 80%, repetindo-se a tentativa todo o mês. A reprodução assistida atende aos outros 20% dos casais que não conseguem engravidar no mesmo período. Eduardo Pandolfi Passos, ginecologista e professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da UFRGS, com doutorado em ginecologia pela Escola Paulista de Medicina, afirma que a média de sucesso a partir de inseminação artificial ou fertilização in vitro é de 20 a 23% no primeiro mês. Essas chances aumentam com as repetições, resultado da taxa cumulativa de gestação.

    Em relação à divulgação de resultados, Passos afirma que as estatísticas corretas são aquelas que revelam os casos efetivos de sucesso, ou seja, "gravidez até o final, com o bebê em casa". Segundo ele, um dos grandes problemas é que muitas vezes são computadas as fertilizações que deram certo e não as gestações completas.

   O fator idade

    A cultura atual de adiar a gravidez não combina muito com a Natureza. É que deixar para tentar mais tarde, no geral, também acaba adiando a descoberta dos problemas. Com isso, a demora para procurar um serviço especializado também é maior. A questão é que acima dos 35 anos, a qualidade dos óvulos começa a diminuir, assim como a qualidade de fertilização. No Serviço de Ecografia, Genética e Reprodução Humana (Segir), em Porto Alegre, por exemplo, a média de idade dos pacientes que chegam procurando ajuda é de 36 anos; e no serviço público de saúde - no Rio Grande do Sul oferecido pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) - é de 34. A idade também é um limitante para o atendimento gratuito. No HCPA só são incluídas mulheres com até 38 anos.

   O preço da reprodução assistida

   No serviço privado, como acontece em qualquer área, os preços variam muito. O ginecologista Eduardo Passos informa que os valores cobrados para a inseminação artificial são a partir de R$ 800,00 e para a fertilização in vitro o mínimo é de R$ 2.500,00. Esses são os preços médios dos tratamentos, que não incluem as medicações. Na inseminação artificial, ainda é preciso investir aproximadamente R$ 400,00 em remédios, e na fertilização in vitro entre R$ 1.500,00 a R$ 2.000,00.

   O HCPA é um dos primeiros locais do país a oferecer reprodução assistida pelo serviço de público de saúde. Os procedimentos são feitos gratuitamente, mas lá também os pacientes precisam gastar com as medicações.

   De acordo com Passos, até hoje os planos de saúde não oferecem cobertura para reprodução assistida, nem mesmo parcialmente. Ele avalia que os problemas de infertilidade são doenças e que, portanto, precisam de tratamento, assim como uma ponte de safena é a solução para alguns problemas cardíacos.

   
Quando parar de tentar

   "O que interessa não é saber se o casal vai ficar grávido, é saber se vai ficar bem, grávido ou não". Essa é a opinião de Passos, taxativo ao dizer que "o tratamento só deve ir até o limite em que as pessoas não estejam sofrendo". Para ele, os procedimentos também devem ser interrompidos quando as pacientes têm idade avançada e pouca resposta ao estímulo ovariano. Nesses casos, pode-se sugerir ao casal que utilize o
serviço de doação de óvulos. A técnica tem se tornado cada vez mais comum, uma vez que as pessoas estão adiando a gravidez e chegando ao atendimento especializado com ovários que não respondem bem.

   É importante salientar que só a tecnologia não é suficiente para dar o suporte necessário ao casal infértil que procura ajuda. O apoio emocional é fundamental para que o problema não acabe gerando conflitos familiares - situação muito comum -, principalmente quando aparecem dificuldades no processo. "Isso gera muita culpa", analisa Passos, comentando que a primeira pergunta que as pessoas fazem é: "o que eu fiz de errado para não dar certo?"

   Entretanto, há formas bem saudáveis de lidar com isso. O
Serviço de Ecografia, Genética e Reprodução Humana (Segir), por exemplo, já tem trabalhado com a concepção de procriação assistida e não mais reprodução assistida. Na prática, isso se traduz em dois tipos de atendimento: o de procriação assistida e o de procriação legalmente assistida, que orienta sobre adoção. "Esse é o intuito de uma equipe que trabalha com casais inférteis. Queremos que eles tenham seu filho, seja de forma biológica ou não", finaliza Passos.

   
Tudo começou com a Veterinária

   Um detalhe que poucos conhecem é que a reprodução assistida tem sua origem na
veterinária. Os estudos mais sistemáticos foram iniciados no século dezenove, na Inglaterra, quando grandes cientistas criaram uma escola para o aprimoramento zootécnico dos animais. "Essa escola deu origem às novas idéias que proporcionaram o desenvolvimento dessa área de reprodução, tanto animal como humana", ensina José Luiz Rodrigues, veterinário, com doutorado em reprodução pela Escola Superior de Medicina Veterinária de Hannover, na Alemanha.

    A primeira coleta e transferência de embriões foi realizada em 1890, época em que a maior dificuldade era mantê-los fora do organismo materno. Segundo Rodrigues, a tecnologia para isso só foi desenvolvida a partir da Segunda Guerra Mundial. Em seguida, no final da década de 60, surgiu interesse pela fertilidade humana. Desde então, há cada vez mais veterinários - e também biólogos - dando suporte técnico nos laboratório dos serviços médicos de reprodução assistida.

Por Dóris Fialcoff
Jornalista
fialcoff@zaz.com.br