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Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução
1. A infertilidade
conjugal..
2. Possíveis causas de
infertilidade
3. Problemas com a
Mulher
4. Problemas com o
Homem
5. Infertilidade
Inexplicada
1. A infertilidade conjugal..
Define-se com a "incapacidade de um
casal conceber ou levar a bom termo uma gravidez, depois de pelo menos
um ano de relacionamento sexual regular sem qualquer protecção". É uma
situação bastante mais frequente do que se pensa habitualmente, pois
cerca de 1 em cada 10 casais tem dificuldade em conseguir o filho que
deseja.
O tratamento da infertilidade é uma história de sucesso. Até há 25 anos
só uma pequena proporção de casais recebia tratamento realmente eficaz.
O uso de hormonas para a estimulação dos ovários, a possibilidade de
monitorizar a resposta com ecografia, o desenvolvimento de técnicas
cirúrgicas sofisticadas, o aparecimento da FIV, e, mais recentemente, da
microinjecção intracitoplasmática de espermatozóides, a possibilidade de
rastreio dos embriões em certas condições, tudo contribuiu para que as
expectativas que um casal infértil tem hoje sejam incomparavelmente
melhores do que antes.
Há que ter sempre presente que a melhor ajuda para o casal que não
conseguiu ainda procriar reside no diagnóstico correcto da causa da
infertilidade e na escolha da alternativa terapêutica mais adequada. Há
uma tendência crescente para considerar as técnicas mais sofisticadas (FIV
e ICSI) como uma espécie de panaceia, um tratamento extremamente eficaz
e indicado em todas as situações.
No entanto, tal não é o caso e a selecção dos casais para quem estas
alternativas são adequadas deve ser feita tentando evitar a criação de
expectativas excessivas e irrealistas, fonte de frustrações e
sofrimentos psicológicos adicionais.
Se tem um problema de infertilidade deverá começar por procurar o seu
médico assistente, que poderá iniciar os estudos mais simples e, quando
considerar adequado, recomendará um centro com consultas de
infertilidade onde poderá completar a investigação das causas da
situação e efectuar o tratamento mais adequado. Em situações mais
complexas, estará indicada a orientação para Unidades que disponham de
técnicas de Procriação Medicamente Assistida (FIV e ICSI).
2. Possíveis
causas de infertilidade
PROBLEMAS COM O HOMEM
Diminuição do número de espermatozóides
Espermatozóides com mobilidade reduzida
Espermatozóides com configuração anormal
Ausência de espermatozóides
PROBLEMAS COM A MULHER
Falência da ovulação
Obstrução das trompas
Doença do útero
Muco cervical desfavorável
Endometriose<br>
Aborto de repetição
Infertilidade inexplicada
Causas da infertilidade
Em aproximadamente 20-30% das situações,
a causa de infertilidade é um problema do homem - há poucos
espermatozóides ou eles não têm as características adequadas. Noutros
30-40% dos casos, o problema é da mulher (o mais frequente é haver
perturbações da ovulação, mas a obstrução das trompas é também uma
situação relativamente comum). Em cerce de 30% dos casais inférteis
ambos os cônjuges contribuem, em maior ou menor grau para o problema.
Em 5% a 10% dos casais não se detecta qualquer razão aparente para a
infertilidade, que então se designa por infertilidade inexplicada ou de
causa desconhecida.
3.
Problemas com a Mulher
As situações mais comuns são:
. Falência da ovulação
Pelo menos 20-25% dos casos de infertilidade feminina são causados por
falência da ovulação, tendo como sintoma menstruações irregulares ou
mesmo ausentes.
A ausência de ovulação pode estar associada a peso excessivo ou
emagrecimento excessivo.
Há numerosas causas para a falência da ovulação, incluindo secreção
reduzida de hormonas pela hipófise (uma glândula na base do cérebro),
existência de ovários poliquísticos e falência de ovários. Geralmente o
tratamento com medicamentos é muito eficaz, 60-70% de casais a conseguir
a desejada gravidez. Há casos especiais em que poderá ser adequada uma
actuação cirúrgica sobre os ovários, ou recorrer a FIV.
Se há insuficiência dos ovários, não existe nenhuma possibilidade de
tratamento. Nalguns países, os casais com este tipo de problema poderão
recorrer a FIV com ovócitos de dadora.
. Obstrução das trompas
É uma causa responsável por cerca de 30% dos casos de infertilidade
feminina. Raramente há sintomas que indiquem a obstrução tubária, embora
por vezes exista no passado uma história sugestiva de infecções dos
órgãos pélvicos. Por vezes as trompas não estão completamente
obstruídas, mas estão fixadas ou aderentes, em posições que impedem a
sua função de captação do óvulo libertado pelo ovário. A obstrução das
trompas, parcial ou completa é habitualmente causada por infecções que
podem ser associadas a bactérias muito diversas.
Em situações (pouco frequentes) existe a possibilidade de tratamento
cirúrgico.
Se não resulta gravidez ou se as trompas estão muito lesadas, há
indicação para
FIV.
. Doenças do útero
Em cerca de 5% das mulheres, a infertilidade está associada a doenças do
útero. Fibromiomas uterinos, anomalias congénitas na configuração do
útero e alterações na sua cavidade interna, podem ser consideradas causa
de infertilidade. Pode não haver quaisquer queixas associadas a estas
doenças ou, pelo contrário, haver menstruações abundantes e dolorosas.
Se há lesões importantes da cavidade uterina, as menstruações podem ser
reduzidas ou inexistentes. A terapêutica é cirúrgica, usando a técnica
mais adequada para cada situação.
. Muco cervical desfavorável
Por vezes, o muco produzido pelo útero nos dias que antecedem a ovulação
é muito espesso e não do tipo "clara de ovo" como é normal. Os
espermatozóides não conseguem então entrar no útero. Em casos raros, o
muco contém anticorpos que imobilizam os espermatozóides.
O tratamento é, habitualmente, inseminação intra-uterina ou, em casos
mais graves, FIV.
. Endometriose
Por vezes, o tecido que cobre o interior do útero desenvolve -se também
externamente e implanta-se na cavidade abdominal, sobretudo na pelve e
nos ovários.
Esta circunstância pode associar-se a menstruações especialmente
dolorosas e, se o processo cicatricial é muito extenso, pode ser causa
de infertilidade.
O tratamento é cirúrgico, embora ocasionalmente possa haver ajuda
importante de certos medicamentos na redução das queixas.
A FIV poderá ser uma alternativa eficaz para conseguir a gravidez.
. Abortos de repetição
Algumas mulheres não têm propriamente dificuldades em engravidar, mas
abortam sistematicamente. Esta situação, infelizmente não muito rara,
poderá ser devida a alterações hormonais ou a malformações congénitas do
útero. Em grande número dos casos o que há são defeitos nos embriões e
isto não tem tratamento, embora haja algumas técnicas promissoras em
investigação
4.
Problemas com o Homem
Os problemas mais comuns são:
. Diminuição do número de espermatozóides
Em condições normais um homem produz mais de 100 milhões de
espermatozóides em cada ejaculação. Embora seja necessário apenas um
espermatozóide para fertilizar o óvulo (a célula feminina), a “viagem”
até atingir o óvulo é tão extraordinariamente difícil que a esmagadora
maioria dos espermatozóides se perde ou morre no trajecto. Por isso, se
um homem produz menos de 20 milhões de espermatozóides no ejaculado, a
sua fertilidade está significativamente reduzida e a probabilidade de
que ocorra uma gravidez é bastante menor. As razões porque tantos homens
têm um número diminuído de espermatozóides não são conhecidas, mas
poderão estar implicados factores genéticos, hormonais e ambientais.
Chama-se oligospermia (ou oligozoospermia) à diminuição acentuada dos
espermatozóides. O tratamento com medicamentos (injecções e/ou
comprimidos) só excepcionalmente tem algum efeito, a não ser que exista
um problema hormonal subjacente. As infecções podem ser tratadas com
antibióticos. Em situações raras poderá haver actuação cirúrgica útil.
Outros métodos de tratamento são as diversas formas de inseminação –
inseminação intra-uterina, fertilização in vitro (FIV) ou microinjecção
intracitoplasmática (ICSI na sigla anglo-saxónica). Na FIV os
espermatozóides são colocados em contacto comos óvulos, em meio de
cultura laboratorial, dando-se a junção das células por actuação dos
seus mecanismos naturais.
Na ICSI, um espermatozóide é injectado directamente no interior do
óvulo, sob visão microscópica. Estas técnicas têm resultados
gratificantes, mas são complexas e dispendiosas, devendo ser um recurso
seleccionado para situações bem definidas.
Vale a pena recordar que, excepto em situações graves, a maioria dos
homens com oligospermia pode fecundar, dando origem a uma gravidez mesmo
sem
tratamento. A probabilidade de isso acontecer, é muito menor do que se o
esperma fosse normal e o tempo necessário para obter a gravidez poderá
ser muito longo.
. Espermatozóides com mobilidade reduzida
É uma situação também muito comum. A baixa mobilidade está muitas vezes
associada à diminuição da concentração de espermatozóides. No esperma
normal, pelo menos 50% dos espermatozóides devem mover-se de forma
adequada. Abaixo desse limite diz-se que o homem tem astenospermia ou
astenozoospermia. A mobilidade reduzida é por si mais importante do que
uma redução moderada da quantidade de espermatozóides. As alternativas
terapêuticas são as descritas atrás.
. Espermatozóides com configuração anormal
Considera-se normal um esperma que tem mais de 15% de espermatozóides
morfologicamente normais. Se essa percentagem é menor que 15% diz-se
existir teratospermia ou teratozoospermia. Os espermatozóides anormais
não dão origem a crianças com malformações! Sucede que esses
espermatozóides não são fecundantes, sendo esta uma causa importante de
infertilidade.
Em situações de teratospermia grave só a microinjecção
intracitoplasmática
(ICSI) oferece possibilidades de êxito significativas.
. Ausência de espermatozóides
Nalguns homens, o ejaculado não contém espermatozóides. Essa situação
designa-se por azoospermia e significa que os testículos não produzem
espermatozóides ou então que estão obstruídos os canis que conduzem os
espermatozóides para o exterior dos testículos. Em situações raras é
possível restaurar a permeabilidade desses canais recorrendo a técnicas
cirúrgicas com utilização de microscópios especiais. Se essa alternativa
não for adequada é possível tentar recolher os espermatozóides
directamente do testículo e utiliza-los para efectuar microinjecção -
ICSI.
Se não há produção de espermatozóides pelos testículos (situação que se
consegue identificar através da biopsia do testículo) e não se trata de
uma das raras situações de causa hormonal, não existem formas de
corrigir a situação. Há alguma investigação promissora relativamente à
possibilidade de fazer microinjecção utilizando células precursoras dos
espermatozóides, mas a eficácia é ainda muito reduzida.
Como opção possível nesses casos há que ter em conta a adopção ou,
quando tal é exequível, a inseminação com esperma de dador.
5. Infertilidade inexplicada
Esta é uma designação de exclusão, isto
é, significa que não foram detectados, nos testes feitos, nenhuns
desvios da normalidade. Se a duração da infertilidade é longa, a FIV tem
indicação formal e neste caso, além de tentar conseguir uma gravidez,
serve também de teste quanto à capacidade das células de ambos os
componentes do casal. |