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O Genoma É como
Um Livro de Receitas O genoma é como um livro de receitas: tem as instruções para juntar as batatas, as cenouras, o feijão, ou seja, todos os ingredientes necessários para fazer uma sopa. Dentro de nós, o nosso livro de receitas, escrito em ADN, ensina as células a fazer um rim, um pâncreas, e por aí fora. Agora que está completa a sequenciação do genoma humano, podemos começar a tentar usar este livro para compreender as doenças que afectam a humanidade. Carmo Fonseca, catedrática da Faculdade de Medicina de Lisboa, e coordenadora do Instituto de Medicina Molecular, explicou quarta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, o que é que os cientistas andam a cozinhar. O genoma é conjunto de todos os genes que compõem um ser humano. Esses genes são escritos em ADN, uma molécula em forma de hélice que se encontra no núcleo de todas as nossas células. Estas instruções genéticas são passadas de pais para filhos. Com a sequência do genoma humano, disse Carmo Fonseca, "já somos capazes de ler o livro de receitas que há dentro de cada um de nós." No entanto, ainda falta perceber como é que a informação se traduz no ser humano, e para isso é necessário decifrar o enigma de como construir uma pessoa a partir da química das moléculas de ADN. Ligado a esta descoberta está o conceito de medicina personalizada, que é ainda uma miragem no horizonte da era pós-genómica. Porque razão é que o mesmo medicamento provoca diferentes efeitos em diferentes indivíduos? Apesar da influência de factores externos, a herança genética tem um papel fundamental na determinação do que torna cada ser um indivíduo único. O estudo do genoma teve início há 50 anos, quando James Watson e Francis Crick resolveram o mistério da estrutura da molécula de ADN, que permitiu começar a aprender como funciona o livro de instruções dos genes. Na década de 70, trocou-se a culinária pelo corte e costura, e descobriu-se que era possível cortar moléculas de ADN, e depois como que cozê-las com uma agulha, inserindo genes de um organismo no genoma de outros - genes humanos produtores de insulina numa bactéria, por exemplo. Os cientistas sabem que os genes são sociáveis, pelo que interessa saber de que modo é que os genes e os seus produtos (as proteínas) comunicam entre si. Os últimos cálculos apontam para um genoma humano com 30 a 50 mil genes, que produzem um a dois milhões de proteínas distintas (o proteoma). Ao contrário do genoma, que se mantém estável ao longo da vida de um indivíduo, o proteoma está em constante metamorfose, variando tanto durante o crescimento e envelhecimento, como no dia-a-dia, em resposta ao meio ambiente. Em resumo, os genes são diferentes porque todos nós somos diferentes. As pequenas variações individuais nos genes chamam-se polimorfismos, e as diferenças não se limitam a conferir diferentes tons de pele ou de cabelo. Têm também a ver com a forma como cada um de nós reage aos medicamentos. O que pode ser bom para uns pode não ser para outros, porque os genes têm formas diferentes de "cozinhar" as drogas, quando entram na "cozinha" das nossas células. Este ciclo de colóquios organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian em conjunto com a Fundação para a Ciência e Tecnologia, é um ciclo mensal de colóquios a realizar até ao fim de 2003. A iniciativa intitulada "Despertar para a Ciência", dirige-se aos alunos das escolas secundárias com o objectivo de os estimular para a ciência. |